Francis Bogossian: “Pré-sal: uma faca de dois gumes”


http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/09/25/e25098651.asp
25/09/2009

Jornal do Brasil

Pré-sal: uma faca de dois gumes

Francis Bogossian

RIO – O Brasil tem tudo para comemorar a descoberta do petróleo do pré-sal. Quando as reservas dos grandes produtores mundiais começavam a se esgotar, o Brasil encontrava petróleo em alto mar e conseguia se tornar autossuficiente. Agora um novo “milagre”, o petróleo na camada do pré-sal, multiplicará por sete o atual volume de reservas do país.

O petróleo do pré-sal é uma dádiva divina. Esta riqueza precisa ser bem explorada e avaliada. Embora se estime que as reservas são da ordem de 90 bilhões de barris, ainda não temos estudos suficientes para confirmar estes números.

Mas, mas pelas previsões mais pessimistas, o volume de recursos que esta riqueza vai gerar é extraordinário. O perigo, no entanto, é de que estas receitas se escoem entre nossos dedos.

Os Estados Unidos montaram sua economia dependente do petróleo e hoje aquele país importa 70% do petróleo que consome.

Nos países em desenvolvimento como México, Venezuela, Angola e Nigéria, por exemplo, a receita do petróleo não produziu melhoria significativa na qualidade de vida da população. O IDH destes países continua muito abaixo dos padrões dos países desenvolvidos.

Estes são alguns exemplos que mostram que o Brasil precisa estudar e planejar com muita atenção, não apenas o que fazer com o petróleo, mas como fazer.

Temos que levar em conta que o petróleo é uma commodity diferente do café. É a matéria prima para a produção de mais de 3 mil subprodutos.

Enquanto o petróleo estiver no subsolo, há garantia da nossa riqueza. Transformado em dólares pode, rapidamente, se esvair sem trazer nenhum benefício para os brasileiros.

Na velocidade que o governo quer aprovar novas regras e gerar receitas, reside a certeza de que o país sairá perdendo.

Ainda não se sabe ao certo qual o tamanho destas reservas ou o custo da extração no pré-sal e já se quer gastar por conta. Os projetos que o governo encaminhou ao Congresso preveem a mudança do marco regulatório, a criação de uma nova estatal e de um fundo social. Os projetos foram elaborados pelo governo sem que houvesse um amplo debate em todo o país, porque o único objetivo é garantir que a União controle as futuras receitas com as exportações do pré-sal.

Mas, exportar petróleo será o melhor caminho? Como isto irá impactar na economia brasileira? Como será possível frear, também controlar a corrupção no país que hoje já atinge níveis estratosféricos e que só tenderá a aumentar com a “montanha” de recursos que entrarão no país? Quais as consequências geotécnicas e ambientais com a exploração do petróleo do pré-sal? Ampliar o parque de refino de petróleo no Brasil é melhor do que exportar o petróleo bruto? Em que prazo o país estima que estas reservas se esgotem?

Quais as saídas para o Brasil após o esgotamento total de nossas reservas?

No século passado, o Brasil usou o petróleo barato para trocar sua matriz de transporte. As ferrovias praticamente desapareceram dando lugar ao transporte rodoviário. O Brasil se move sobre carros, ônibus e caminhões, que poluem e consomem combustível não renovável. Metrôs, trens e hidrovias ainda estão longe de atender às necessidades do transporte de carga e de passageiros.

Este é apenas um exemplo da nossa falta de planejamento de longo prazo. Não podemos permitir que aconteça de novo.

O Brasil era o país do futuro. O futuro chegou e avançamos muito pouco, se compararmos com países como a Coréia e China, no que diz respeito aos níveis de escolaridade e de industrialização.

O país não pode desperdiçar a riqueza do pré-sal. Um fórum permanente de discussão sobre o assunto precisa ser criado imediatamente. O Rio de Janeiro deve liderar este debate porque, além de ser o centro dos estudos sobre petróleo e gás, tanto na Petrobras como nas universidades, é o principal interessado no tema, tendo em vista que 80% da produção atual de petróleo do Brasil são extraídos na costa fluminense.

Sem uma análise e planejamento adequados, movido apenas pela pressão financeira, o petróleo do pré-sal será mais um ciclo de desenvolvimento não sustentado como foram a borracha e o café, com o perigo de que a valorização da nossa moeda ainda destrua a indústria brasileira.

* Francis Bogossian é presidente do Clube de Engenharia e da AEERJ-Associação das Empresas de Engenharia do Rio de Janeiro

http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/09/25/e25098651.asp
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: