Prof. Pinguelli Rosa defende política do governo Lula para o setor petrolífero mas critica a do setor elétrico

1 de novembro de 2010

Agência Brasil
01/11/2010

Pinguelli Rosa defende política de petróleo e critica setor elétrico

Nielmar de Oliveira
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro – Na avaliação do diretor da Coordenação dos Programas de Pós- Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), Luiz Pinguelli Rosa, a eleição de Dilma Rousseff é a garantia de que a política do governo para o setor de petróleo será mantida, em particular para a área do pré-sal. “No setor energético eu concordo muito com a política do petróleo, em particular com a decisão sobre a partilha do pré-sal; com a política dos biocombustíveis”.

Pinguelli Rosa, no entanto, não concorda com a política do governo para o setor elétrico e defende mudanças, em particular, na relação do governo federal com os grupos privados. No entendimento dele, o governo do presidente Lula manteve os mesmos privilégios das empresas do setor concedidos pela administração do presidente Fernando Henrique Cardoso. Para ele, que foi o primeiro presidente da Eletrobras no governo Lula, a política adotada para o setor elétrico é um equivoco. “A energia elétrica está muito cara, foram mantidos os contratos e privilégios do setor privado quando se iniciou o governo. O setor elétrico precisa de mudanças”.

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A estratégia nacional e a energia

21 de outubro de 2009

http://www.cepen.org/2009/10/a-estrategia-nacional-e-a-energia/

CEPEN – Centro de Estudos de Políticas e Estratégias Nacionais

21 Outubro, 2009

A estratégia nacional e a energia

Darc António da Luz Costa

* texto publicado originalmente em 2001


A história do mundo industrial é uma história recente. É a história da apropriação da natureza através de uma forma nova de mediação. A partir do século XVIII, a apropriação da natureza deixou-se de fazer exclusivamente pela interação física do corpo humano ou do corpo das bestas com a natureza. A apropriação da natureza deixou de ser fruto exclusivo de trabalho humano ou animal. O homem havia descoberto que tinha capacidade de dar a natureza uma representação numérica razoavelmente satisfatória e ao fazê-lo poderia vir a utilizar-se desta nova capacidade para também se apropriar da natureza. O homem podia fazer ciência e com a ciência era capaz de criar tecnologia.

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Senado aprova Reinfa – Regime Especial de Tributação para o Incentivo ao Desenvolvimento e à Produção de Fontes Alternativas de Energia

9 de outubro de 2009

http://www.energiahoje.com/online/eletrica/eolica-e-solar/2009/10/09/395747/senado-aprova-reinfa.html

ENERGIA HOJE

09/10/2009

Senado aprova Reinfa

Da Redação, com Agência Senado

A Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado aprovou o projeto de lei que institui o Regime Especial de Tributação para o Incentivo ao Desenvolvimento e à Produção de Fontes Alternativas de Energia (Reinfa) e estabelece medidas de estímulo à produção e ao consumo de energia limpa.

De acordo com a proposta, as empresas que se dedicarem a pesquisar, produzir ou explorar equipamentos que utilizem energias alternativas, como solar, eólica ou marítima para a produção de energia, poderão ter regime especial de tributação, nos moldes do que existe no segmento da infraestrutura (Reidi). Elas ficarão isentas de uma série de contribuições e impostos, como o PIS/Pasep, Cofins e Imposto de Importação.

As empresas que lidam com produção de veículos tracionados por motor elétrico, híbridos ou não, também poderão ter acesso ao benefício. Para ter acesso ao benefício, no entanto, terão que estar em dia com os tributos e as contribuições administradas pela Secretaria da Receita Federal.

A matéria, que recebeu cinco emendas do relator, senador Gilberto Goellner (DEM-MT), segue para decisão terminativa da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. O senador destacou que uma das limitações para a exploração das fontes alternativas é o custo mais alto em relação às fontes convencionais.

Em uma das emendas, o relator incluiu como condição para adesão ao regime especial o índice de nacionalização de 60% para equipamentos de fontes alternativas. Outra emenda estabelece a isenção de Tarifas de Uso dos Sistemas de Transmissão (Tust) e Distribuição (Tusd) para empreendimentos com até 30 MW, desde que a isenção seja repassada ao consumidor final.

http://www.energiahoje.com/online/eletrica/eolica-e-solar/2009/10/09/395747/senado-aprova-reinfa.html

Empresa que usar energia alternativa receberá incentivos

5 de outubro de 2009

http://www.senado.gov.br/jornal/noticia.asp?codEditoria=22&dataEdicaoVer=20091005&dataEdicaoAtual=20091005&nomeEditoria=Comiss%C3%B5es&codNoticia=89411

SENADO

Comissões – Outras Notícias
segunda-feira 05 de outubro de 2009

Empresa que usar energia alternativa receberá incentivos

Comissões – CI – Comissão de Infra-Estrutura

Proposta que cria o Regime Especial de Tributação para o Incentivo ao Desenvolvimento e à Produção de Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Reinfa) foi debatida na Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI). O PLS 311/09 será votado na próxima reunião e prevê benefícios para empresas que produzem ou trabalham com energia eólica, solar e marítima.

http://www.senado.gov.br/jornal/noticia.asp?codEditoria=22&dataEdicaoVer=20091005&dataEdicaoAtual=20091005&nomeEditoria=Comiss%C3%B5es&codNoticia=89411

Palestra na UFRGS: “Geopolítica do Pré-sal, petróleo e energia limpa”

1 de outubro de 2009

DIÁRIO DO PRÉ-SAL

Palestra na UFRGS: “Geopolítica do Pré-sal, petróleo e energia limpa”

Quinta-feira, 01/10/2009.

Ocorreu hoje no Campus do Vale da UFRGS, a palestra sobre “Geopolítica do pré-sal, petróleo e Energia Limpa”, apresentada pelo prof. Lucas Kerr de Oliveira, entre 19:00 e 22:00, no auditório do ILEA. O público alvo foram os alunos do curso pré-vestibular PEAC, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, que lotaram o auditório do ILEA, com capacidade para 140 pessoas.

O curso pré-vestibular PEAC – Projeto Educacional Alternativa Cidadã, é um curso sem fins lucrativos, formado por alunos e ex-alunos da UFRGS que atuam no Campus do Vale. O PEAC oferece à população sem condições econômicas de pagar um curso pré-vestibular particular, a oportunidade de cursar um pré-vestibular popular de qualidade.

O prof. Lucas K. de Oliveira iniciou a apresentação discutindo os principais aspectos da geopolítica do petróleo, como as disputas pelo controle das zonas petrolíferas e dos corredores de passagem ou de transporte de petróleo pelo mundo, por oleodutos/gasodutos ou por navios, ou seja, por terra e pelo mar. Fez uma análise do papel dos recursos energéticos  na história da humanidade, considerando seus impactos sociais, econômicos, políticos e militares, especialmente na política internacional. Como exemplo destacou as principais disputas por recursos energéticos nas principais guerras e conflitos armados do século XX.

O palestrante analisou ainda as disputas por região, partindo da tradicional análise do Oriente Médio, seguida pela Eurásia (Rússia, Cáucaso, Mar Cáspio e Ásia Central), uma breve análise de alguns casos na África (Angola, Nigéria, Sudão) e na América do Sul (Colômbia, Venezuela e Bolívia).

O palestrante apresentou ainda alguns dos aspectos geológicos da exploração petrolífera e discutiu o problema da finitude das reservas petrolíferas, polemizando o debate em torno do problema do “pico petrolífero” e o encarecimento gradativo do custo do petróleo. Neste contexto de crescente disputa por recursos energéticos é que Oliveira apresentou o impacto e significado da descoberta do pré-sal no litoral brasileiro, com reservas semelhantes às de países como Kuwait ou Iraque. Ou seja, o que representa para o Brasil ter realizado uma das maiores descobertas de um novo campo petrolífero nas últimas décadas, frente ao esgotamento das reservas na América do Norte, Europa e mesmo em alguns países da OPEP.

Por fim, o prof. Lucas apresentou algumas das principais alternativas de geração de energia alternativa ao petróleo, atualmente existentes no mundo, focando nas alternativas renováveis e mais limpas, como energia hidrelétrica, eólica, solar, maremotriz, geotérmica e o papel dos biocombustíveis ou agrocombustíveis (álcool, óleos vegetais, biodiesel e biogás). Também discutiu a necessidade de se diversificar os meios de transporte e apresentou rapidamente algumas das perspectivas de desenvolvimento de sistemas inovadores de geração e distribuição de energia, a partir da produção de novos materiais semicondutores e novos materiais supercondutores.


“O tesouro da superfície” – Pré-sal e biocombustíveis

22 de setembro de 2009

http://www.biodieselbr.com/colunistas/gazzoni/tesouro-superficie-22-09-09.htm

BiodieselBR

terça, 22 setembro 2009

O tesouro da superfície

Décio Gazzoni

Conferência BiodieselBR

Ou eu sou muito inquieto, ou a sociedade brasileira é muito acomodada. Digo isto por uma série de motivos, dois dos quais me perturbam muito. O primeiro, é que perdemos a capacidade de nos indignar com corrupção, falcatruas, desmandos, desvios, criminalidade, injustiças – ou falta de justiça, ou ainda justiça demorada. O outro, que não necessariamente tem a ver com o primeiro, é que somos pautados com muita facilidade. Um assunto é posto em pauta, normalmente sem contraditório, e a discussão gira em torno de detalhes do tema: dificilmente as alternativas a ele são colocadas.

Intróito posto, vamos ao ponto. O Governo encaminhou ao Congresso a proposta de marco regulatório da exploração das jazidas de petróleo da região do pré-sal. Está dada a pauta, discute-se o pré-sal, se as reservas têm 30, 50 ou 90 bilhões de barris, se o sistema de exploração deve ser de partilha ou concessão, se os roialties ficam só com os estados beira-mar do pré-sal ou se todos deveriam ser beneficiados, se devemos criar um fundo soberano, se sobreviveremos à doença holandesa, entre outros. Ou seja, como diz o gaudério, giramos em volta do toco – e o toco é o pré-sal. De repente, não existe mais o problema das mudanças climáticas globais. A discussão pós Kyoto, que se inicia em dezembro, em Copenhagen, parece que foi adiada sine die.

De repente – não mais que de repente – convenientemente nos esquecemos que o Brasil possui a matriz energética mais limpa do mundo e que tem a obrigação de pugnar por preservar e ampliar este patrimônio. O emprego, a interiorização do desenvolvimento, as oportunidades democráticas de renda, não são mais prioridades. Ninguém mais lembra que a sociedade global caminha para um câmbio paradigmático, em que as energias renováveis substituirão, progressivamente, a energia fóssil e suja, ao longo deste século. E que o Brasil está fadado a ser o protagonista desta mudança, ser a locomotiva do novo paradigma, seja energia eólica, solar ou de biomassa.

Nova pauta
É neste ponto que a minha banda de controvérsia fica inquieta, pois não aceito pratos feitos. Ótimo que Deus tenha colocado dezenas de bilhões de barris de petróleo no nosso sub-mar. Porém, será que o mesmo Deus que provê é o que nos pregou uma peça? Tivéssemos descoberto esta riqueza há 50 anos, estaríamos esgotando a sua exploração, já teríamos nos saciado com sua riqueza, e poderíamos nos alinhar com a maior cara-de-pau ao discurso ambientalista do futuro. Mas, atirar-se na exploração do pré-sal sem esgotar a discussão das alternativas, quando o mundo busca, desesperadamente, livrar-se da energia suja, é uma ironia do destino – a revogação de nosso passado de bom comportamento ambiental no setor energético. Mas será que Deus foi tão sacana assim com o Brasil? Afinal, Deus não é brasileiro?

Parto da hipótese de que Deus é brasileiro, sim senhor. Colocou o petróleo escondido lá no pré-sal, para ser descoberto no momento errado, mas nos deu solo fértil e extenso e clima tropical adequado para produzir muita, mas muita biomassa. Um exagero de biomassa, coisa que nenhum outro país consegue produzir, de forma competitiva. E também colocou dentro de nossas fronteiras um povo com capacidade empresarial, mão de obra suficiente e adequada e criatividade para gerar tecnologia agrícola e industrial, para transformar solo e clima em alimentos e energia.

É aí que eu quero chegar. Em vez de discutirmos apenas a riqueza do petróleo do pré-sal, a 7.000m de profundidade, por que não discutirmos a riqueza que podemos extrair da biomassa, um inesgotável tesouro energético de superfície. A discussão que proponho é a seguinte: seria possível extrair a mesma quantidade de energia do pré-sal, a partir da agricultura de energia? Vou procurar demonstrar que é mais do que possível. A bem da verdade, podemos extrair muito mais energia, mas vou ficar nos limites da energia do pré-sal, que é a discussão do momento.

Premissas
Para demonstrar minha tese, elaborei um modelo matemático para calcular quantos hectares precisaríamos cultivar para extrair a mesma quantidade de energia de biomassa, que obteríamos com a exploração do petróleo do pré-sal. Para tanto, aceito sem discussão as premissas que estão sendo colocadas pelas fontes oficiais, quais sejam:

1. As reservas da área do pré-sal poderiam chegar, na hipótese mais otimista, a 90 bilhões de barris de petróleo. Ninguém arrisca dizer quanto disto seria recuperável. Para evitar qualquer discussão lateral, o modelo assume que seria possível extrair integralmente a estimativa máxima, que é de 90 bilhões de barris de petróleo;

2. No evento de lançamento do marco regulatório do pré-sal, foi afirmado que, em 2020, seria possível extrair 2 milhões de barris/dia (Mb/d) de petróleo do pré-sal (730 milhões de barris/ano – Mb/a). O modelo assume que, no primeiro ano, seriam extraídos 2 milhões de barris / dia (Mb/d) porém, a cada ano, este valor seria incrementado em 3%, até o esgotamento das reservas.

Aceitas estas premissas sobre o petróleo, vamos às premissas da biomassa:
1. Extrairíamos a mesma quantidade de energia que seria obtida do petróleo do pré-sal, porém obtida de cana-de-açúcar, ou de uma combinação de cana-de-açúcar e dendê. O Brasil possui inúmeras outras opções, as matérias primas poderiam ser diversificadas, porém simplificamos o modelo apenas para demonstrar a tese;

2. Da cana é possível extrair, atualmente, bioetanol e, no futuro, uma multiplicidade de biocombustíveis, ainda mais eficientes que o etanol. Do bagaço e da palha de cana é possível gerar bioeletricidade;

3. O modelo assume como conteúdo energético da cana o valor de 7,14GJ/t, correspondendo à energia contida no caldo, na bagaço e na palha. No modelo, este valor é fixo ao longo de todo o tempo – embora seja possível aumentar o teor energético da cana – a fim de evitar imputações de favorecimento da energia renovável;

4. Na mesma linha de ser duro com a energia renovável, o modelo assume que apenas 70% da energia contida na cana seriam efetivamente transformadas em biocombustíveis ou bioeletricidade, no ínicio do processo, prevendo eventuais quebras de safra ou ineficiências de transformação. Entretanto, considerando um horizonte de 50 anos, este valor diminui à metade no final do período, pelos ganhos tecnológicos que evitarão quebras de safra (por fatores bióticos ou abióticos) e pelo ganho de eficiência de conversão de energia;

5. Considera-se a média de produtividade inicial da cana de 100 t/ha, que já é obtida com facilidade pelas lavouras mais modernas. Considera-se um ganho de produtividade variável entre 1,5 e 2,4% ao ano, ao longo do período. Não foi considerada a possibilidade de irrigação, que aumentaria muito a produtividade de cana, para evitar discussões paralelas sobre competição no uso de água;

6. No caso do dendê, o modelo assume um conteúdo energético de 9,24MJ (cascas, bagaço e óleo) e uma produtividade inicial de 25 t/ha, com teor de óleo de 22%, o que está perfeitamente dentro dos valores razoáveis, com a tecnologia comercial disponível. O óleo de dendê seria aproveitado para a produção de biodiesel ou outro biocombustível, enquanto a casca e o bagaço seriam aproveitados para geração de bioeletricidade;

7. Assumiu-se uma perda de 10% na conversão de energia do dendê para biocombustível e bioeletricidade, valor fixo em todo o período, vez que a regularidade das chuvas no trópico úmido torna pouco provável quebras de produção. Para os ganhos de produtividade agrícola e industrial foram assumidos os mesmos valores utilizados para a cana.

Embora não seja possível extrair de imediato o petróleo do pré-sal, nos volumes acima referidos, o modelo assume que isto seria possível, apenas para permitir a comparação com as áreas de produção de cana e de dendê, que poderiam ser implementadas já no curto prazo.

A sequência de algoritmos do modelo prevê:
1. Calcular quantos barris de petróleo seriam extraídos por ano, do pré-sal;
2. Transformar este valor em unidades de energia (GJ);
3. Converter a energia do petróleo em equivalente de energia de biomassa (cana ou dendê), calculando quantas toneladas de biomassa seriam necessárias para obter a mesma energia;
4. Calcular a área necessária para obter o volume de biomassa calculado;
5. Corrigir a área obtida em função das quebras de safra ou ineficiências de transformação.

Resultados
A Figura 1 mostra o que aconteceria se, em vez de extrair petróleo do pré-sal, a sociedade brasileira optasse por produzir a mesma quantidade de energia, a cada ano, obtida integralmente de cana-de-açúcar. Seriam necessários, no primeiro ano, 7,26 milhões de hectares e no ano 51, quando as reservas do pré sal se esgotariam, cultivar-se-iam 10,6 milhões de hectares de cana. A energia obtida desta área equivaleria a extrair 2 Mb/d (ou 730 MB/a) no primeiro ano e 9,03 Mb/d (3.295 Mb/a), no ano 51.

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Figura 1. Área de cana-de-açúcar necessária para produzir a mesma quantidade de energia extraída do petróleo da região do pré-sal.

O leitor pode questionar que da cana não se obtém substituto do petrodiesel. Respondo com três argumentos: primeiro, no curto prazo, existem outros poços de petróleo em operação pela Petrobrás, que forneceriam o petrodiesel; segundo, já existe tecnologia comprovada e eficiente para substituir, parcialmente, petrodiesel por etanol, sem mudanças sensíveis nos motores; terceiro, já existe tecnologia em fase préindustrial, com microrganismos transgênicos, que transformam a sacarose da cana em hidrocarbonetos lineares, saturados, de cadeia média, quimicamente semelhantes ao petrodiesel (que já são chamados de diesel vegetal), e que podem ser utilizados sem mudanças nos motores. O processo de transformação da sacarose para diesel vegetal é mais eficiente que a transformação para etanol, o que significa ganhos de energia, que não foram computados no modelo, para evitar discussões desnecessárias de favorecimento da energia de biomassa.

As Figuras 2 a 4 representam um cenário em que 50% da energia equivalente ao petróleo extraído, anualmente, da região do pré-sal seriam obtidos de cana e 50% de dendê. Pelo exame da Figura 2 verifica-se que seriam necessários, inicialmente, 3,6 milhões de hectares de cana e, no ano 51 (esgotamento das reservas do pré-sal), 5,3 milhões de hectares, para obter energia equivalente à metade do petróleo que seria extraído do pré-sal. Já a Figura 3 mostra a energia obtida com a cultura do dendê, para obter outros 50% de energia equivalente ao petróleo do pré-sal. Neste caso seriam necessários, inicialmente, 9,5 milhões de hectares e, ao final do período, 15,6 milhões de hectares para produzir 50% da energia que seria obtida, anualmente, com o petróleo do pré-sal.

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Figura 2. Área de cana-de-açúcar necessária para produzir 50% da energia extraída do petróleo da região do pré-sal.

Figura 3. Área de dendê necessária para produzir 50% da energia extraída do petróleo da região do pré-sal.

A Figura 4 consolida as duas áreas necessárias (de cana e de dendê), mostrando que, no final do período, quando seria maior a demanda de energia, estaríamos utilizando 21 milhões de hectares, o que significa, aproximadamente, a área cultivada atualmente com soja no Brasil, ou meros 2,47% do território nacional!

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Figura 4. Área total de cana-de-açúcar e de dendê necessárias para produzir o equivalente em energia extraída do petróleo da região do pré-sal.

Discussão
Algumas questões podem ser levantadas, portanto melhor respondê-las a priori. Por exemplo:

– O Brasil dispõe da área necessária para plantar a cana, ou o dendê e a cana, para obter a mesma energia equivalente à do petróleo extraído do pré-sal?

Seguramente dispõe. E ousaria afirmar que não precisaríamos derrubar uma única árvore para tanto, o que atende tanto à determinação do Presidente Lula, quanto a luta das ONGS ambientais, sem falar na pressão dos governos de outros países.

Poderíamos cultivar toda a cana e todo o dendê apenas aproveitando as áreas já antropizadas, de pastagens degradadas, de baixa eficiência. Estima-se que, do total de 170 milhões de hectares de pastagens do Brasil, cerca de 25% se encontram em estágio avançado de degradação, com baixa eficiência produtiva. Melhorando em apenas 25% os índices médios de lotação e de idade de abate do gado de corte (que, diga-se de passagem, não fazem jus ao estado da arte da tecnologia pecuária disponível no Brasil), liberaríamos mais de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas. Entretanto, no cenário de maior demanda de área, não precisaríamos nada além de 21 milhões de hectares para produzir a mesma energia que seria extraída dos 90 bilhões de barris de petróleo do pré-sal.

– E os fertilizantes? De onde viriam?

A cana, além de grande fornecedora de energia, também fornece água e fertilizantes. Como o fósforo e, principalmente, o potássio não são exportados, porém permanecem na torta de filtro, nas cinzas e na vinhaça, os nutrientes retornam em grande parte para a lavoura de cana. Temos grandes reservas sub-aproveitadas de fósforo, em diversos pontos do território nacional. Também temos grandes reservas de potássio, que nunca foram aproveitadas. Dispomos de tecnologia para fixar parte do nitrogênio requerido pela cana, através de bactérias endofíticas, sem necessidade de adubação. A renovação dos canaviais, a cada 5 anos, pode ser efetuada com soja ou amendoim, que deixam uma parcela do nitrogênio no solo. O cultivo intercalar de leguminosas com o dendê pode prover outra parte. E, o restante, pode ser obtido a partir da síntese utilizando como insumo industrial as reservas de gás dos atuais poços que a Petrobrás já opera.

– E quais seriam as vantagens de produzir energia de biomassa, ao invés de extrair petróleo?

Vamos enumerá-las:
1. Do ponto de vista econômico, as diferenças seriam pequenas, posto que o mercado se ajustaria aos custos e à demanda. Sob a ótica da arrecadação de impostos, não haveria muita diferença entre obter energia de uma ou outra fonte. Do ponto de vista comercial, estaríamos em linha com as tendências mundiais de uso de energia limpa, portanto um mercado ascendente nos próximos anos.

2. Do ponto de vista ambiental, evitaríamos a emissão de 43 bilhões de toneladas de gás carbônico, resultante da queima do petróleo. Este valor foi obtido utilizando a metodologia desenvolvida pelo Prof. Horta Nogueira (UNIFEI), que demonstrou que o ciclo fechado do carbono dos biocombustíveis produz uma emissão líquida de apenas 9-10% do equivalente em massa de combustível fóssil. No caso da substituição de gasolina por bioetanol, o Prof. Horta Nogueira demonstrou que, enquanto 1.000 litros de gasolina produzem uma emissão líquida de 3.368 kg de CO2, o mesmo volume de bioetanol produz emissões líquidas de apenas 309 kg de CO2. Evitar este fabuloso volume de emissões de gases de efeito estufa representará um privilegiado patrimônio geopolítico para o país, que poderá lançar mão deste crédito em negociações internacionais, acordos sobre energia, comércio ou de outra ordem.

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Figura 5. Emissões de CO2 evitadas, anualmente, com a substituição de combustíveis provenientes do petróleo do pré-sal por biocombustíveis.

3. Do ponto de vista de saúde pública, basta lembrar que a Organização Mundial de Saúde – OMS divulgou recentemente que 3 milhões de pessoas morrem, anualmente, devido aos efeitos da poluição atmosférica, sendo parcela ponderável atribuída aos poluentes liberados pela queima de combustíveis fósseis. A cidade de São Paulo gasta, por ano, US$ 208 milhões com os efeitos da poluição atmosférica sobre a saúde humana. A estimativa considera apenas os custos diretos que a cidade tem com as doenças e mortes causadas pelo coquetel de gases que os paulistanos inalam toda vez que enchem os pulmões. Estudos do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP mostram que poluição atmosférica mata oito pessoas por dia, em média, na cidade de São Paulo. Em dias em que há paralisação do metrô e consequente aumento na concentração de poluentes, ocorrem nove mortes a mais do que nos dias pós-greve. Quem vive em cidades poluídas como São Paulo tem a vida abreviada em 2,5 anos. Todo este sofrimento humano poderia ser evitado com o uso de biocombustíveis, eliminando os particulados emitidos pelos combustíveis derivados de petróleo.

4. No tocante à geração de empregos, diversos estudos podem ser citados. Primeiro, um estudo da Embrapa demonstrou que uma lavoura de dendê de 5 hectares gera renda suficiente para atender, com dignidade, as necessidades de uma família. Supondo que a família se componha de 4 pessoas, na média dos 50 anos de duração das reservas do pré-sal, seria possível gerar renda para um conjunto de mais de 10 milhões de cidadãos. Em relação à lavoura de cana, o Prof. José Goldemberg, da USP, demonstrou que, por unidade de energia produzida, a produção de bioetanol, em comparação com as cadeias de carvão mineral, hidroeletricidade e petróleo necessita, respectivamente, de 38, 50 e 152 vezes mais mão de obra. O prof. Leal, da Unicamp, refere que, durante a vida útil total de um veículo (15 anos), é necessário 6 vezes mais mão de obra caso se utilize a mistura de 24% de bioetanol na gasolina, ou 21 vezes mais, quando se utiliza 100% bioetanol, comparativamente ao mesmo veículo movido exclusivamente a gasolina. Estudos da ÚNICA e do MAPA (2004) mostraram que, para cada milhão de litros de etanol produzidos, foram gerados 37 empregos diretos no campo e, para cada emprego direto, entre 1 e 3 empregos indiretos. Baseados nestes números, seriam gerados mais de um milhão de empregos diretos e mais de 2 milhões de empregos indiretos, considerando apenas a cadeia do bioetanol (no cenário com 50% da energia obtida da cana). Caso toda a energia seja obtida da cana, seriam 2 milhões de empregos diretos e 4 milhões indiretos. Enquanto isso, de acordo com o Prof. Goldemberg, o petróleo do pré-sal geraria apenas e tão somente 12.000 empregos diretos e 24.000 indiretos. Estes números nos obrigam a pensar na empregabilidade dos nossos filhos e netos e posicioná-la na discussão do pré-sal.

5. A cada 5 anos é necessário renovar o canavial. A cultura de dendê permite intercalar cultivos, até o terceiro ano. Nesta condição, teríamos o bônus de aumentar a produção de alimentos em 15-20%, sem expandir a área cultivada, favorecendo, especialmente, a agricultura familiar.

6. Finalmente, e de extrema importância. Estamos no ano de 2061 e as reservas de petróleo do pré-sal acabaram. Porém, a demanda de energia no Brasil e no mundo continua crescendo. Como atendê-la? No caso do petróleo, não sei responder, a não ser reafirmar que não acredito que a sociedade mundial continuará com a atitude suicida de empestar a atmosfera queimando energia suja, até a metade deste século. Entretanto, no caso da biomassa tenho a resposta pronta: continuaremos produzindo cada vez mais alimentos e mais energia, por séculos e séculos, porque se trata de uma fonte não apenas limpa mas, principalmente, renovável. Os 21 milhões de hectares que foram utilizados por 50 anos para produzir energia, continuarão à nossa disposição para a finalidade que a sociedade lhe destinar. Esta é uma das grandes vantagens estratégicas que devem nortear a reflexão de todos nós.

Entendo o interesse e o frisson em torno do pré-sal, a única grande incorporação de reservas de petróleo do mundo, nas últimas décadas. Entendo, perfeitamente, as razões das companhias petrolíferas – nacionais e multinacionais. Entendo as razões das empreiteiras e de toda a cadeia do petróleo. Entendo as razões dos políticos e de todos quantos defendem a exploração imediata e total desta riqueza.

Entretanto, julgo que, neste momento histórico em que se busca a segunda independência do Brasil, ser necessário analisar as alternativas de que dispomos, de espírito aberto, buscando equilibrar na balança do bom senso, o que é melhor para o Brasil e para o mundo – afinal, também vivemos no mundo. E um mundo melhor – com menos problemas climáticos, com menos problemas de saúde, com mais emprego (e menos criminalidade), com melhor distribuição de renda, com interiorização do progresso, com múltiplas oportunidades para pequenas e médias empresas, com garantia de atendimento da demanda de energia além do horizonte do fim da era do petróleo – interessa a todos.

Não tenho a pretensão de que os números aqui apresentados sejam precisos, menos ainda exatos, pois trata-se de um modelo de simulação matemática. De resto, os números do pré-sal também não são precisos ou exatos. O objetivo deste artigo é mostrar que outro mundo é possível: um mundo com menos poluição, mais emprego, mais renda, mais justiça, provocando uma reflexão do leitor por um ângulo que não lhe havia sido apresentado anteriormente. Feliz do povo que pode escolher entre alternativas, quando o restante do mundo se bate, desesperadamente, por uma solução para a crise energética – mesmo que a solução signifique o aprofundamento do problema.

Como queríamos demonstrar, Deus é brasileiro, sim. Nós, brasileiros, é que precisamos entender, corretamente, os desígnios divinos. E, para entendê-los, melhor não nos bitolarmos e não restringirmos a discussão apenas à pauta que nos é empurrada goela abaixo, buscando uma solução que seja a melhor para todos. E que pode ser até uma combinação entre o que expus acima e retirar apenas um terço do petróleo do pré-sal, impondo um imposto poluição para, através de serviços ambientais, limpar a sujeira causada pela sua queima.

Décio Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, membro do Painel Científico Internacional de Energia Renovável.

http://www.biodieselbr.com/colunistas/gazzoni/tesouro-superficie-22-09-09.htm

Itaipu: Aeronaves não-tripuladas fazem exibição

21 de setembro de 2009

http://www.itaipu.gov.br/?q=pt/node/435&id_noticia=2920

ITAIPU – SALA DE IMPRENSA

21/09/2009

Aeronaves não-tripuladas fazem exibição

O Ecomuseu serviu de base para a demonstração de três veículos aéreos não tripulados, na última sexta-feira (18). Os equipamentos são alternativas aos grandes, barulhentos e caros helicópteros e aviões utilizados em operações de reconhecimento. A demonstração contou com a presença do DGB, Jorge Samek, e do prefeito Paulo MacDonald, além de representantes de órgãos de defesa e da segurança pública.

Como um bom vigia, de longe ele passa despercebido. Silencioso, parece um pássaro despretensioso rondando lá do alto. Sem se dar conta, quem passou pela Ponte da Amizade na tarde da última sexta-feira (18) pode ter sido “espiado” pela ave sorrateira que, na verdade, era um dos veículos aéreos não tripulados (VANTs) demonstrados em Foz do Iguaçu. Pequenos e parecidos com aeromodelos, os equipamentos são alternativas aos comparativamente grandes, barulhentos e caros helicópteros e aviões convencionalmente utilizados em operações de reconhecimento.


Os aviões são lançados à mão e não exigem pistas  para decolagem  e pouso
O Ecomuseu serviu de base para o lançamento e acompanhamento da apresentação de três diferentes modelos de aviões. Com muito interesse, representantes da Itaipu acompanharam tudo de perto: a empresa está avaliando a possibilidade de adquirir ou contar com os serviços dos VANTs para monitorar o reservatório e suas áreas de proteção ambiental

A demonstração contou com a presença do diretor-geral brasileiro, Jorge Samek, e do prefeito de Foz do Iguaçu, Paulo MacDonald. Também compareceram integrantes das Forças Armadas e de diversos órgãos de segurança pública. Entre eles, Aeronáutica, Polícia Federal, Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Polícia Civil, Polícia Militar e Guarda Municipal.


De longe, o pequeno VANT mais parece um pássaro
Os aviões são fabricados pela AeroVironment, empresa norte-americana sediada na Califórnia, e importados pela Comtex, primeira indústria brasileira especializada na área de tecnologia em monitoramento por vídeo. A AeroVironment conta com 14 mil aviões semelhantes aos apresentados em Foz do Iguaçu voando pelo mundo.

A Comtex se propôs a fazer uma apresentação à prefeitura, que se interessou e pediu para a Itaipu ceder espaço para a demonstração. O Ecomuseu foi o local escolhido em função da proximidade com o Rio Paraná e da distância em relação às grandes linhas de transmissão de energia.
Mais barato

A grande virtude dos VANTs, apontada dos pelos especialistas presentes na demonstração, é o preço. Segundo Sérgio Nercessian, diretor comercial da Comtex, uma operação com o avião não tripulado custa, em média, “cerca de 5% a 10% do valor que seria gasto em um voo de helicóptero”.
De acordo com Rogel Abib Zattar, superintendente de Segurança Empresarial, a Itaipu está no aguardo da apresentação detalhada dos custos de operação para, então, avaliar a relação custo/benefício. “Talvez, nesse momento, em vez da compra, o mais interessante seja a prestação de serviços, mas não se descarta a aquisição, embora isso exija a formação de equipes devidamente treinadas”, afirma Zattar.


Monitor mostra a aduana na Ponte da Amizade: a qualidade da imagem é nítida
Se houver a recomendação por parte da Segurança Empresarial, a diretoria da Itaipu está disposta a encampar a ideia. “Como é algo necessário, a gente estuda, vê o preço, similares no mercado e se coloca em orçamento dentro do período adequado”, ressalta Samek. “Os aviões podem ser úteis inclusive para o acompanhamento dos nosso programas ambientais, como a instalação de cercas e plantação de árvores”, complementa o DGB.

O prefeito Paulo McDonald, que diz ter ficado “impressionado com a apresentação”, também não descarta o uso dos VANTs pelo município. “Não esperava que tanta tecnologia coubesse em um artefato tão pequeno assim”, afirma. “Nessa fase de aprimoramento dos instrumentos de combate ao crime, seria de grande ajuda para a utilização nas ações conjuntas da Guarda Municipal com as polícias Militar e Civil”, diz o prefeito.

Os aviões

Três modelos, de diferentes tamanhos e preços, foram demonstrados. O maior (Puma AE, de 2,8 metros de envergadura) tem custo estimado em 500 mil dólares; o médio (Raven RQ-11B, de 1,4 m de envergadura), em 300 mil dólares; e o menor (Wasp III, de 72 centímetros de envergadura), em 250 mil dólares.
Eles são equipados com câmeras de zoom potente, infravermelho (para operação noturna), são elétricos (não usa combustível) e não requerem grandes espaços ou pistas de lançamento. A decolagem é feita à mão, com uma pessoa em pé. Os voos são pré-programados e podem ser operados em terra, por um sistema de controle remoto. A altitude varia de 150 a 300 metros de altura e, a velocidade, de 40 a 83 quilômetros por hora. O acompanhamento é feito por monitores instalados em terra.

http://www.itaipu.gov.br/?q=pt/node/435&id_noticia=2920

G8 vincula segurança energética à luta contra aquecimento

25 de maio de 2009

http://www.estadao.com.br/vidae/not_vid376706,0.htm
segunda-feira, 25 de maio de 2009

G8 vincula segurança energética à luta contra aquecimento

Grupo se comprometeu a apresentar 20 projetos antes de 2010 para o desenvolvimento de tecnologias limpas

Efe

ROMA – Os membros do Grupo dos Oito (G8, que reúne os sete países mais desenvolvidos e a Rússia) vincularam o futuro de um uso energético eficiente e seguro com a luta contra a mudança climática, no documento final que divulgaram nesta segunda-feira, 25, ao término de dois dias de reuniões em Roma sobre os desafios na área.

Por isso, anunciam que, além de buscar um futuro de segurança energética, os países mais industrializados contribuirão “ao sucesso da Convenção da Mudança Climática de Copenhague, que será realizada no final de 2009”.

Os ministros da Energia de Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Canadá e Rússia concluíram hoje dois dias de reuniões com representantes de outras 15 grandes economias, como China, Brasil ou México, para tentar conseguir um uso mais eficiente da energia.

“Reconhecemos que os desafios vinculados à mudança climática e à segurança energética e ao uso eficiente dos recursos energéticos estão entre os assuntos mais importantes a serem abordados em uma perspectiva estratégica”, assegura o documento final da reunião.

As conclusões desses dois dias de contatos servirão para preparar a reunião de líderes do G8 que será realizada em julho, em L’Aquila, cidade italiana que em 6 de abril foi devastada por um terremoto que matou quase 300 pessoas.

O secretário de Energia americano, Steven Chu, assegurou ao término do encontro que o mundo precisa de “uma segunda revolução industrial”.

O representante do Governo Barack Obama citou como exemplo a primeira revolução industrial, quando foi introduzida a energia elétrica “para melhorar as condições de vida das pessoas”, e explicou que agora é preciso uma “redução no consumo de energia e de produção de CO2”.

O documento final admite que os combustíveis fósseis continuarão sendo “um componente-chave do mix energético na maioria dos países, tanto desenvolvidos como em desenvolvimento, durante muitas décadas”.

No entanto, o G8 se comprometeu em Roma a apresentar 20 projetos de grandes dimensões antes de 2010 para apoiar o desenvolvimento de tecnologias limpas e a redução de custos nesta indústria.

Os países mais industrializados citam especificamente a energia nuclear como uma alternativa para diversificar e contribuir com a segurança energética e acrescentam que essa tecnologia reduz “as emissões de gases causadores do efeito estufa”.

No entanto, destacaram que para poder ter acesso a essa energia é fundamental o compromisso com “a segurança e a não-proliferação de armas nucleares”.

O G8 confia nas negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC) para que se liberalize a troca entre países de “tecnologias de baixo consumo de energia” através de uma “redução de tarifas”.

O grupo de países mais desenvolvidos também se diz partidário de uma colaboração mais estreita “entre instituições públicas e o setor privado”.

O G8 emitiu um documento conjunto com os demais países participantes da reunião: Brasil, China, Egito, Índia, Coreia do Sul, México, Arábia Saudita, África do Sul, Argélia, Austrália, Indonésia, Líbia, Nigéria, Ruanda e Turquia.

No texto se recomenda que a crise não atrase “os investimentos em programas energéticos”, ao alegar que são “essenciais para a recuperação econômica e a prosperidade sustentável”.

Entre outras medidas, essas 15 economias e o G8 se mostraram de acordo em estender o diálogo entre os países produtores de combustíveis fósseis e os Estados consumidores, assim como com as nações que servem de passagem no transporte da energia.

Além disso, os países reunidos em Roma manifestaram a intenção de impulsionar o desenvolvimento das infraestruturas energéticas na África, já que são um “importante elemento para o desenvolvimento econômico e para combater a pobreza”.

http://www.estadao.com.br/vidae/not_vid376706,0.htm


Palestras na UFRGS: Calouradas 2009

15 de março de 2009

http://dceufrgs.wordpress.com/2009/03/15/calouradas-2009/
15/03/2009

Calouradas 2009

Publicado por DCE-UFRGS em Domingo, 15/03/09

Se correr a crise pega, se ficar a crise come… e aí, pra onde vamos?


Na próxima semana iniciam as Calouradas. A programação das atividades consiste em um ciclo de palestras temático, no qual procura-se sempre abordar um tema candente da atualidade. Como não poderia deixar de ser, neste ano temos como tema a crise econômica e seus desdobramentos em várias áreas (educação, saúde, meio ambiente, energia, territórios entre outras).

Durante a escolha dos sub-temas e debatedores, procuramos abranger boa parte das áreas do conhecimento. Ainda que a abrangência em alguns casos aparentemente não seja imediatamente ligada a determinadas áreas, buscamos contemplar não somente as demandas estritamente estudantis, mas de todos que sofrerão os impactos da crise e que, portanto, estão interessados em buscar alternativas para superá-la. Afinal, como nos alerta Florestan Fernandes, sociólogo brasileiro: “Ou os estudantes se identificam com o destino do seu povo, com ele sofrendo a mesma luta, ou se dissociam do seu povo, e nesse caso, serão aliados daqueles que exploram o povo.”


Saudamos em especial a ti, calouro (a) e te desejamos um excelente início!


Conheça agora parte da trajetória dos palestrantes que você ouvirá na semana que vem.

SEGUNDA-FEIRA (16/03)

18h30 – Pra onde vão os Movimentos Sociais?

Local: Auditório do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA) – Campus do Vale

Debatedores:

Eliane Martins é graduada em História pela UFSM e militante do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD).

Jorge Alberto Quillfeldt é professor do Departamento de Biofísica do Instituto de Biociências da UFRGS desde 1992. Entre 2003-2007 foi Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Neurociências do Instituto de Ciências Básicas da Saúde, também da UFRGS. Sua trajetória iniciou na licenciatura em Física da UFRGS (a qual concluiu em 1986). Em 1989 obteve o título de mestre em Bioquímica e, em 1994, de doutor em Fisiologia, ambos pela UFRGS. Atualmente é pesquisador e Orientador na área de Neurofarmacologia e Psicobiologia da Memória. Além de pesquisador na área das ciências naturais, é um profundo conhecedor da realidade latino-americana e dos movimentos sociais atuantes, como o Exército Zapatista de Libertação Nacional – que defende os direitos indígenas no México.

Representante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

Representante do Movimento Terra e Liberdade (MTL)

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18h30 – As crises da crise: território, alimentos e as fontes energéticas

Local: Salão de Atos 2 – Reitoria – Campus Centro

Debatedores:

Edson Flores estudou Engenharia de Minas na UFRGS (à época fez parte da coordenação geral do DCE). Atualmente é presidente do Sindicato dos Petroleiros do Estado (Sindipetro/RS). A principal campanha em que o mesmo tem se envolvido desde o ano passado intitula-se “O Petróleo tem que ser nosso”, a qual trás novamente à tona a necessidade do retorno do controle estatal sobre a exploração do petróleo existente no País, com maior ênfase nas descobertas recentes de reservas nomeadas de “pré-sal”.

Eduardo Fillippi graduou-se em Economia na UFRGS em 1993, e obteve o título de mestre em Economia Rural (pela mesma universidade) em 1997. Em 2004 obteve o título de doutor em Economia Política pela Universite de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines (UVSQY), França. Trabalhou com análise de mercado no Sindicato das Indústrias de Artefatos de Borracha do RS (SINBORSUL) e na Editora Safra. Atualmente ministra disciplinas para os cursos de Economia e Relações Internacionais, bem como para o PPGE (Programa de Pós-graduação em Economia) e PPGDR (Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural), e coordena dois projetos de pesquisa. Tem dois livros publicados, sendo um deles “Reforma agrária – Experiências internacionais em reordenamento agrário e a evolução da questão da terra no Brasil” (Edufrgs, 2005).

Clique aqui para ler artigo Experiências internacionais de reforma agrária: entre socialismo e populismo?

Clique aqui para ler artigo Os Sistemas Agro-alimentares locais e as inter-relações com a economia ecológica


Rualdo Menegat é geólogo, Mestre em Geociências (UFRGS), Doutor em Ciências na área de Ecologia de Paisagem (UFRGS). Atualmente atua junto ao Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da UFRGS, Editor da Revista Episteme do Grupo Interdisciplinar em Filosofia e História das Ciências do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA) da UFRGS, assessor científico da National Geographic Brasil. Foi o Coordenador-geral do Atlas Ambiental de Porto AlegreDesenvolvimento sustentável e gestão ambiental nas cidades (Edufrgs, 2004). Possui 115 itens de produção técnica, participou de 21 eventos no exterior e 110 no Brasil e recebeu 15 prêmios e homenagens.  Foi Secretário Adjunto da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Porto Alegre (1994-1998), Conselheiro do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio Grande do Sul (1993-1994), Coordenador do Curso de Geologia (2000-2002), Coordenador do Grupo Interdisciplinar em Filosofia e História das Ciências do ILEA (2003-2005).

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TERÇA-FEIRA (17/03)

13h30 – Crise energética e disputas geopolíticas

Local: Auditório do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA) – Campus do Vale

Debatedores:

Marcus Vianna participou do Movimento Estudantil na UFRGS, tendo sido coordenador geral do DCE na gestão 2006/2007. Graduou-se em História com o trabalho de conclusão intitulado A Revolução Boliviana nas Páginas de Porto Alegre. Atualmente tem se dedicado a estudar e a visitar o país andino.

Lucas Kerr de Oliveira obteve o título de Doutor em Ciência Política, ênfase em Política Internacional, na UFRGS no ano passado com a tese intitulada A Política das Disputas por Petróleo na África. Mestre em Relações Internacionais pela UFRGS. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar (2004). Foi coordenador pedagógico do curso pré-vestibular popular da UFRGS em 2007-2008 e atuou como professor em pré-vestibulares populares desde 1999, nas áreas de Geografia, História e Atualidades. Pesquisa a área de Política Internacional e Relações Internacionais, principalmente Segurança Internacional e Segurança Energética, com ênfase nos temas: África Subsaariana, Energia, Petróleo e Recursos Naturais, Paz & Conflitos Internacionais.

Clicando aqui você pode baixar a dissertação de mestrado do professor Lucas Kerr.

Paulo Brack é biólogo e mestre em Botânica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos. Foi gerente da Reserva Biológica do Lami e biólogo da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Porto Alegre. Desde 1994 é professor do curso de Biologia e do Curso de Pós-Graduação em Diversidade Animal (ambos da UFRGS). Foi curador do Herbário ICN do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da UFRGS. Participou como membro da comissão de elaboração da Lista da Flora Ameaçada do RS (Decreto Estadual 42099/2002) e da equipe de revisão da Lista de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção. Atuou como sub-coordenador do projeto Plantas do Futuro Região Sul (PROBIO – MMA); ex-consultor da elaboração do projeto RS Biodiversidade do Governo do Estado do RS para o Global Environment Facility e Banco Mundial. Atualmente é consultor de revistas técnicas sobre temas relacionados a Botânica, estado de conservação da flora, impactos ambientais de empreendimentos como loteamentos, hidrelétricas e silvicutura. É figura atuante em fóruns para o fortalecimento de políticas sobre biodiversidade. Além disso, é membro da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), indicado pelo FBOMS (Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para Meio Ambiente e o Desenvolvimento) e do CONSEMA-RS (Conselho Estadual do Meio Ambiente), representando o Ingá (Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais).

Clique aqui para ler uma entrevista com o professor Paulo Brack realizada pelo IHU Online.

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18h30 – A crise econômica e os impactos na Saúde

Local: Auditório do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) – Campus Saúde

Debatedores:

Maria Ceci Misoczky graduou-se em Medicina pela UFRGS em 1978. Em 1990, obteve o título de Mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com a dissertação intitulada A luta dos trabalhadores rurais do Rio Grande do Sul pelo direito à saúde: a conquista que não houve e, em 2002, doutorou-se em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (sua tese de doutorado intitulou-se O campo da atenção à saúde após a Constituição de 1988: uma narrativa de sua produção social). Atualmente é professora adjunta do Departamento de Ciências Administrativas da UFRGS. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Administração Pública e Estudos Organizacionais, atuando principalmente nos seguintes temas: administração pública, análise de políticas públicas, teorias organizacionais, gestão em saúde.

Renato Paese é advogado da ASERGHC – Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição. A associação surgiu em 1976, unicamente com o intuito de prestar assistência aos funcionários. Em 1987, devido à omissão do sindicato majoritário, assumiu o papel de levar adiante as reivindicações dos funcionários. A ASERGHC tem realizado desde sua fundação atividades de integração, protestos, assembléias e lutas em defesa dos interesses dos trabalhadores do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), tendo em vista a qualidade da saúde, sua gratuidade e caráter público.

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QUARTA-FEIRA (18/03)

18h30 – Brasil: aqui a crise é mais embaixo

Local: Auditório da Faculdade de Ciências Econômicas (FCE) – Campus Centro

Debatedores:

Bernadete Menezes é natural de Belém (PA). Atua nos movimentos sociais há 30 anos, quando iniciou a sua participação no movimento secundarista em São Paulo. Em 1983 foi presa e enquadrada na Lei de Segurança Nacional, processo do qual foi absolvida em julgamento quase dois anos depois. Transferiu-se para Porto Alegre no início dos anos 90, onde foi vereadora. Foi membro da Executiva Nacional da CUT, entidade da qual se desvinculou posteriormente. Atualmente é dirigente nacional da Intersindical e Coordenadora Geral da Associação dos Servidores da UFRGS (ASSUFRGS).

Gilmar Mauro é um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e membro da sua Coordenação Nacional.

Clique aqui para ler uma entrevista com Gilmar Mauro.

Luiz Augusto Estrela Faria possui graduação em Ciências Econômicas (1979) e mestrado em Economia pela UFRGS (1991) e doutorado em Economia pela UFRJ (2001). Atualmente é técnico da Fundação de Economia e Estatística, editor da revista Indicadores Econômicos FEE e professor da UFRGS nos cursos de pós-graduação em Economia e em Relações Internacionais e nos cursos de graduação em Ciências Econômicas e em Relações Internacionais. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Economia Política e Economia Internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: economia brasileira, integração econômica, globalização, relações exteriores do Brasil e Mercosul.

Ronald Rocha nasceu em Inhapim, MG. Estudou Engenharia Mecânica na UFMG e prosseguiu com especialização na área Econômica da antiga ENE-UB (RJ), onde iniciou a militância política. Cursou Sociologia na UFRJ. Ocupou a Diretoria da UME (União Metropolitana dos Estudantes) do Rio de Janeiro em 1967, a presidência do Centro Acadêmico Edson Luís (CAEL) em 1968 e a vice-presidência da UNE em 1969-72. Foi preso político durante o regime militar em 1972-1973 e afastado da Universidade por três anos pelo Decreto 477. Depois, formou-se no ISEP (Divinópolis, MG) e estudou Filosofia da História na USP em regime de pós-graduação. Pesquisou pela FAPESP, lecionou Antropologia, História do Brasil e Economia Política no ensino superior, dirigiu uma cooperativa rural, trabalhou no ramo editorial, atuou na escolarização de trabalhadores, participou da Fundação Perseu Abramo como Curador e integrou conselhos de várias revistas teóricas nas áreas de Ciências Humanas. Produziu dezenas de ensaios para periódicos ou coletâneas especializados e seis livros, dentre os quais “Democracia Divina e Democracia Profana”, prefaciado por Ricardo Antunes e Florestan Fernandes.

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QUINTA-FEIRA (19/03)

18h30 – Crise econômica: a pedagogia da exploração

Local: Sala 101 da Faculdade de Educação (FACED) – Campus Centro

Debatedores:

Fábio Félix participou da ocupação da Reitoria da UnB em abril de 2008, realizada como forma de pressão para que o reitor Timothy Mulholland – o das lixeiras de R$1000 – renunciasse ao cargo. É estudante de Serviço Social da UnB, Coordenador Geral do DCE-UnB (Diretório Central dos Estudantes) e Secretário de Movimentos Sociais do LASSOS (Laboratório de Políticas Sociais da UnB).

Neiva Lazzarotto é professora de língua portuguesa e milita no Sindicato dos Trabalhadores em Educação da rede pública estadual do RS (CPERS/Sindicato) desde o ano de 1986, onde atualmente ocupa o cargo de Segunda Vice-Presidente. Diretora da Confederação Nacional de Educação (CNTE) gestão 2000-2006, participou de sete edições do Fórum Social Mundial, três edições do Fórum Mundial de Educação e de duas edições do Congresso Nacional da Educação (CONED), – movimento da Sociedade Civil – universidades, sindicatos – nos anos 90. Integra a coordenação Estadual da Intersindical.

Representante do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN)

FIQUE LIGADO!

TROTE SOLIDÁRIO NO CAMPUS DO VALE

Na quarta-feira (18/03) teremos diversas atividades culturais e de integração. Uma unidade móvel receberá doações de sangue da galera. Shows ao vivo e atividades culturais. A partir das 11h.

Decadénce avec élégance, a festa!

Encerraremos a semana das Calouradas com uma grande festa, na escola de samba Acadêmicos da Orgia (Av. Ipiranga, em frente à Escola de Farmácia). A partir das 23h, com entrada franca para estudantes da UFRGS com direito a um acompanhante de fora da Universidade e show das bandas Os Aventuras, Turucutá e Tribo Brasil.

Realização:

DCE UFRGS – Gestão 2008/2009 – DCE Sempre em Frente. UFRGS, pra que(m) te quero?!

http://dceufrgs.wordpress.com/2009/03/15/calouradas-2009/

Michael T. Klare: “A nova geopolítica da energia”

22 de maio de 2008

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15011

Agência Carta Maior

22/05/2008

A nova geopolítica da energia

Michael T. Klare

The Nation

Os estrategistas militares norte-americanos estão se preparando para as futuras guerras que certamente serão empreendidas, não por questões de ideologia ou política, mas em luta por recursos crescentemente escassos. Estima-se que, juntos, os Estados Unidos e a China chegarão a consumir 35% das reservas mundiais de petróleo em 2025.

Os estrategistas militares norte-americanos estão se preparando para as futuras guerras que certamente serão empreendidas, não por questões de ideologia ou política, mas em luta por recursos crescentemente escassos.

Enquanto a atenção diária do exército norte-americano está concentrada no Iraque e Afeganistão, os estrategistas norte-americanos olham para além destes dois conflitos com o objetivo de prever o meio em que irá ocorrer o combate global em tempos vindouros. E o mundo que eles enxergam é um no qual a luta pelos recursos vitais — mais do que a ideologia ou a política de equilíbrio de poder — domina o campo da guerra. Acreditando que os EUA devem reconfigurar suas doutrinas e forças para prevalecer em semelhante entorno, os oficiais mais veteranos deram os passos necessários para melhorar seu planejamento estratégico e capacidade de combate. Apesar de que muito pouco disto tudo chegou ao domínio público, há um bom número de indicadores-chave.

A partir de 2006, o Departamento de Defesa, em seu relatório anual “Capacidade Militar da República Popular da China”, coloca no mesmo nível a competição pelos recursos e o conflito em torno de Taiwan como a faísca que poderia desencadear uma guerra com a China. A preparação de um conflito com Taiwan permanece como “uma razão importante” na modernização militar chinesa, segundo indica a edição de 2008, mas “uma análise das aquisições recentes do exército chinês e do seu pensamento estratégico atual sugere que Pequim também está desenvolvendo outras capacidades do seu exército, para outro tipo de contingências, como, por exemplo, o controle sobre os recursos.” O relatório considera, inclusive, que os chineses estão planejando melhorar sua capacidade para “projetar seu poder” nas zonas que em obtêm matérias-primas, especialmente combustíveis fósseis, e que esses esforços podem supor uma significativa ameaça para os interesses da segurança norte-americana.

O Pentágono também está solicitando, neste ano, fundos para o estabelecimento do Africa Command (Africom), o primeiro centro de mando unificado transatlântico desde que, em 1983, o presidente Reagan criou o Central Command (Centcom) para proteger o petróleo do Golfo Pérsico. A nova organização vai concentrar seus esforços, supostamente, na ajuda humanitária e na “guerra contra o terrorismo”. Mas em uma apresentação na Universidade Nacional de Defesa, o segundo comandante do Africom, o Vice-Almirante Robert Moeller, declarou que “a África tem uma importância geoestratégica cada vez maior” para os EUA — o petróleo é um fator-chave — e que entre os desafios fundamentais para os interesses estratégicos norte-americanos na região está a “crescente influência na África” por parte da China.

A Rússia também é contemplada através da lente da competição mundial pelos recursos. Apesar de que a Rússia, diferentemente dos EUA e da China, não precisa importar petróleo nem gás natural para satisfazer suas necessidades nacionais, esse país quer dominar o transporte de energia, especialmente para a Europa, o que tem causado alarme nos oficiais veteranos da Casa Branca, que receiam uma restauração do status da Rússia como superpotência e temem que o maior controle desse país sobre a distribuição de petróleo e gás na Europa e na Ásia possa enfraquecer a influência norte-americana na região.

Em resposta à ofensiva energética russa, a administração Bush está empreendendo contramedidas. “Tenho a intenção de nomear… um coordenador especial de energia, que dedicará especialmente todo o seu tempo à região da Ásia Central e do mar Cáspio”, informou, em fevereiro, a Secretária de Estado Condoleezza Rice ao Comitê de Assuntos Exteriores do Senado. “É uma parte verdadeiramente importante da diplomacia.” Um dos principais trabalhos deste coordenador, segundo declarou Rice, será o de promover a construção de oleodutos e gasodutos que cincunvalem a Rússia, com o objetivo de diminuir o controle desse país sobre o fluxo energético regional.

Tomados em conjunto estes e outros movimentos semelhantes sugerem que houve um deslocamento da política: em um momento em que as reservas mundiais de petróleo, gás natural, urânio e minérios industriais chave —como o cobre e o cobalto— começam a diminuir e a demanda por esses mesmos recursos está disparando, as maiores potências mundiais desesperam-se por conseguir o controle sobre o que resta das reservas ainda sem explorar. Estes esforços geralmente envolvem uma intensa guerra de lances nos mercados internacionais, o que explica os preços recordes que estão alcançando todos estes produtos, mas também adotam uma forma militar, quando começam a ser feitas transferências de armamento e são organizadas missões e bases transatlânticas. Para reafirmar a vantagem dos EUA —e para contrabalançar movimentos similares da China e outros competidores pelos recursos— o Pentágono situou a competição pelos recursos no próprio centro do seu planejamento estratégico.

Alfred Thayer Mahan, revisitado
Não é a primeira vez que os estrategistas norte-americanos dão máxima prioridade à luta global pelos recursos. No final do século XIX, um atrevido grupo de pensadores militares liderados pelo historiador naval e presidente do Naval War College, Alfred Thayer Mahan, e seu protégé, o então Secretário Assistente da Marinha, Theodore Roosevelt, fizeram uma campanha exigindo uma Marinha norte-americana forte e a aquisição de colônias que garantissem o acesso aos mercados de ultramar e às matérias-primas. Seus pontos de vista ajudaram pontualmente a aumentar o apoio da opinião pública à Guerra Hispano-Americana e, após sua conclusão, ao estabelecimento de um império comercial norte-americano no Caribe e no Pacífico.

Durante a Guerra Fria, a ideologia governou completamente a estratégia norte-americana de contenção da URSS e de derrota do comunismo. Mas mesmo nesse momento não foram totalmente abandonadas as considerações em torno dos recursos. A doutrina Eisenhower, de 1957, e a doutrina Carter, de 1980, apesar de acomodarem-se à habitual retórica anti-soviética da época, pretendiam sobretudo assegurar o acesso dos EUA às prolíficas reservas de petróleo do Golfo Pérsico. E quando o presidente Carter estabeleceu, em 1980, o núcleo do que mais tarde seria o Centcom, sua principal preocupação era a proteção do fluxo de petróleo proveniente do Golfo Pérsico, e não a contenção das fronteiras da União Soviética.

Após o fim da Guerra Fria, o presidente Bush tentou —e não conseguiu— estabelecer uma coalizão mundial de estados com ideologias afins (uma “Nova Ordem Mundial”), que deveria manter a estabilidade mundial e permitir aos interesses empresariais (com as companhias norte-americanas à frente) estender seu alcance por todo o planeta. Este enfoque, embora suavizado, foi adotado depois por Bill Clinton. Mas o ocorrido em 11-9 e a implacável campanha contra os “estados canalhas” (principalmente contra o Iraque de Saddam Hussein e o Irã) da atual administração Bush recolocaram o elemento ideológico no planejamento estratégico norte-americano. De acordo com o que foi apresentado por George W. Bush, a “guerra contra o terrorismo” e os “estados canalha” são os equivalentes contemporâneos das anteriores lutas ideológicas contra o fascismo e o comunismo. Examinando mais de perto estes conflitos, contudo, é impossível separar o problema do terrorismo no Oriente Médio, ou o desafio do Iraque e do Irã, da história da extração de petróleo naquelas regiões por parte de empresas ocidentais.

O extremismo islâmico, do tipo propagado por Osama Bin Laden e Al Qaeda na região, tem muitas raízes, mas uma das mais importantes afirma que o ataque ocidental e a ocupação de terras islâmicas —e a resultante profanação das culturas e povos muçulmanos— é produto da sede de petróleo dos ocidentais. “Lembrem também que a razão mais importante que os nossos inimigos têm para controlar nossas terras é a de roubar nosso petróleo”, disse Bin Laden para seus simpatizantes em uma gravação sonora datada em dezembro de 2004. “Ou seja, que devem fazer o que estiver em suas mãos para deter o maior roubo de petróleo da história.”

De modo similar, os conflitos dos EUA com o Iraque e Irã foram modelados pelo princípio fundamental da doutrina Carter, que diz que os EUA não permitirão que surja uma potência hostil que possa conseguir, em um momento dado, o controle do fluxo de petróleo no Golfo Pérsico, e com isso, em palavras do vice-presidente Cheney, “ser capaz de ditar o futuro da política energética mundial.” O fato de que estes países possivelmente estão desenvolvendo armas de destruição massiva somente complica a tarefa de neutralizar a ameaça que representam, mas não altera a lógica estratégica subjacente no fundo dos planos de Washington.

A preocupação sobre a segurança do fornecimento de recursos tem sido, então, uma característica central no planejamento estratégico há bastante tempo. Mas a atenção que agora se presta a essa questão representa uma mudança qualitativa no pensamento norte-americano, igualável apenas aos impulsos imperiais que levaram à Guerra Hispano-Americana um século atrás. Contudo, nesta ocasião o movimento está motivado não por uma fé otimista na capacidade norte-americana de dominar a economia mundial, mas por uma perspectiva francamente pessimista sobre a disponibilidade dos recursos vitais no futuro e pela intensa competição por eles, da qual participam a China e outros motores econômicos emergentes. Enfrentando este duplo desafio, os estrategistas do Pentágono acreditam que assegurar a primazia norte-americana na luta pelos recursos mundiais deve ser a prioridade número um da política militar norte-americana.

Volta ao futuro
Alinhada com este novo enfoque, a ênfase está colocada agora no papel mundial que deve desempenhar a Marinha norte-americana. Utilizando uma linguagem que teria sido surpreendentemente familiar para Alfred Mahan e o primeiro presidente Roosevelt, a Marinha, os marines e a guarda costeira revelaram em outubro um documento intitulado “Uma estratégia cooperativa para o poder naval no século XXI”, no qual se destaca a necessidade dos EUA de dominar os oceanos e garantir para si as principais rotas marítimas que conectam o país com seus mercados de ultramar e com as reservas de recursos.

Nas quatro décadas passadas, o comércio marítimo mundial quadruplicou: 90% do comércio mundial e dois terços do petróleo são transportados por mar. As rotas marítimas e a infra-estrutura costeira que as apóiam são a tábua de salvação da atual economia global. Expectativas de crescimento cada vez maiores e o aumento da competição pelos recursos, junto com a escassez, podem servir como motivação para que as nações façam cada vez mais reclamações de soberania sobre parcelas cada vez maiores do oceano, das vias fluviais e dos recursos naturais, e de tudo isso podem resultar potenciais conflitos.

Para enfrentar este perigo, o Departamento de Defesa empreendeu uma modernização total da sua frota de combate, o que inclui o desenvolvimento e obtenção de novos porta-aviões, destróieres, cruzadores, submarinos e um novo tipo de nave de “combate litorâneo” (armamento costeiro), um esforço que levará décadas completar e que consumirá centenas de milhares de milhões de dólares. Alguns dos elementos deste plano foram revelados pelo presidente Bush e pelo Secretário de Defesa Gates na proposta de orçamento para o ano fiscal 2009, apresentada no passado mês de fevereiro. Entre os artigos mais caros do orçamento destacam os seguintes:

– 4,2 bilhões de dólares para a principal embarcação de uma nova geração de porta-aviões com propulsão nuclear.

– 3,2 bilhões de dólares para um terceiro míssil para o destróier classe “Zumwalt”. Estas embarcações de guerra com camuflagem avançada irão servir também como plataforma de teste para um novo tipo de mísseis cruzeiro, os CG(X).

– 1,3 bilhões de dólares para as duas primeiras embarcações de combate litorâneo.

– 3,6 bilhões de dólares para um novo submarino classe Virgínia, a embarcação de combate subaquático mais avançada do mundo, atualmente em produção.

Os programas de construção naval propostos terão um custo de 16,9 bilhões no ano fiscal de 2009, depois dos 24,6 bilhões de dólares votados para o ano fiscal 2007-2008.

O novo enfoque estratégico da Marinha reflete-se não só na obtenção de novas embarcações, mas também no posicionamento dos que já existem. Até pouco tempo atrás, a maioria dos ativos navais estavam concentrados no Atlântico Norte, no Mediterrâneo e no Pacífico Noroeste, em missões de apoio às forças da OTAN norte-americanas e em virtude dos pactos de defesa com a Coréia do Sul e o Japão. Estes vínculos aparecem de maneira muito destacada nos cálculos estratégicos, mas aumenta cada vez mais a importância da proteção dos enlaces comerciais vitais no Golfo Pérsico, no sudeste do Pacífico e no Golfo da Guiné (próximo aos maiores produtores de petróleo da África). Em 2003, por exemplo, o chefe do US European Command declarou que os porta-aviões de combate sob seu comando estariam menos tempo no Mediterrâneo e “durante metade do seu tempo desceriam para a costa oeste da África.”

Um enfoque similar guia a restruturação das bases de ultramar, que em grande medida haviam permanecido intactas nos últimos anos. Quando a administração Bush chegou ao poder, a maioria das principais bases estavam na Europa Ocidental, no Japão ou na Coréia do Sul. Por insistência do então Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, o Pentágono começou a mobilizar forças da periferia da Europa e da Ásia para suas regiões centrais e do sul, especialmente a Europa Central e Oriental, o centro da Ásia e o sudeste asiático, assim como no norte e centro da África. É verdade que essas zonas são o lar da Al Qaeda e dos “estados-canalha” do Oriente Médio, mas também é verdade que aí está 80% ou mais das reservas mundiais de gás natural e petróleo, assim como reservas de urânio, cobre, cobalto e outros materiais industriais cruciais. E, como já foi dito antes, é impossível separar uma coisa da outra nos cálculos estratégicos norte-americanos.

Outro ponto importante a considerar é o plano norte-americano para manter uma infra-estrutura básica com a finalidade de apoiar as operações de combate na bacia do Mar Cáspio e na Ásia Central. Os vínculos americanos com os estados desta região foram estabelecidos anos antes do 11-9 para proteger o fluxo do petróleo do Mar Cáspio para o Ocidente. Acreditando que a bacia do mar Cáspio seria uma nova e valiosa fonte de petróleo e gás natural, o presidente Clinton trabalhou aplicadamente para abrir as portas à participação norte-americana na produção energética da zona, e embora advertido dos antagonismos étnicos endêmicos da região, tentou reforçar a capacidade militar das potências aliadas do lugar e preparar uma possível intervenção das forças norte-americanas na zona. O presidente Bush redobrou estes esforços, aumentando o fluxo da ajuda militar norte-americana e estabelecendo bases militares nas repúblicas da Ásia Central.

Uma mistura de prioridades governa os planos do Pentágono para reter uma constelação de bases “duradouras” no Iraque. Muitas destas instalações serão, sem dúvida, utilizadas para continuar dando apoio às operações contra as forças insurgentes, para atividades de inteligência militar e para o treinamento do exército e unidades policiais iraquianas. Mesmo se todas as tropas de combate norte-americanas fossem retiradas, de acordo com os planos anunciados pelos senadores Clinton e Obama, algumas destas bases seriam, com toda probabilidade, mantidas para atividades de treinamento, que tanto Clinton quanto Obama já afirmaram que irão continuar. Por outro lado, pelo menos algumas das bases estão especificamente dedicadas à proteção das exportações de petróleo iraquiano. Em 2007, por exemplo, a Marinha revelou que tinha construído uma instalação de direção e controle sobre e ao longo de um terminal de petróleo iraquiano no Golfo Pérsico, com a finalidade de supervisionar a proteção dos terminais de extração mais importantes da zona.

Uma luta global
Nenhuma outra das principais potências mundiais é capaz de igualar os Estados Unidos na hora de mobilizar sua capacidade militar na luta pela proteção das matérias-primas de vital importância. Contudo, as outras potências estão começando a desafiar seu domínio de várias maneiras. China e Rússia, em especial, estão proporcionando armas aos países em vias de desenvolvimento produtores de petróleo e gás e estão, também, começando a melhorar sua capacidade militar em zonas-chave de produção energética.

A ofensiva chinesa para ganhar acesso às reservas estrangeiras é evidente na África, onde Pequim estabeleceu vínculos com os governos produtores de petróleo da Argélia, Angola, Chade, Guiné Equatorial, Nigéria e Sudão. A China também tem procurado acesso às abundantes reservas minerais africanas, perseguindo as reservas de cobre da Zâmbia e do Congo, de cromo no Zimbabue e um leque de diferentes minerais na África do Sul. Em cada caso os chineses têm conquistado o apoio destes países provedores com uma diplomacia ativa e constante, ofertas de planos de assistência para o desenvolvimento e empréstimos com juros baixos, chamativos projetos culturais e, em muitos casos, com armamento. A China é agora o maior provedor de equipamentos básicos de combate para muitos destes países, e é especialmente conhecida por vender armas para o Sudão, armas que têm sido utilizadas pelas forças governamentais em seus ataques contra as comunidades civis de Darfur. Além disso, assim como os EUA a China tem complementado suas transferências de armas com acordos de apoio militar, o que leva a uma presença constante de instrutores, conselheiros e técnicos chineses na zona, competindo com seus homólogos norte-americanos pela lealdade dos oficiais militares africanos.

O mesmo processo está ocorrendo, em grande medida, na Ásia Central, onde China e Rússia cooperam, com o auspício da Shanghai Cooperation Organization (SCO), para proporcionar armamento e assistência técnica aos “istãos” da Ásia Central [Kazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguizistão], mais uma vez competindo com os EUA para conquistar a lealdade das elites militares locais. Nos anos 1990 a Rússia esteve preocupada demais com a Chechênia para prestar atenção a esta zona, e a China, por sua vez, estava concentrada em outras questões, que considerava prioritárias, ou seja que Washington contou com uma vantagem temporária. Contudo, nos últimos cinco anos Moscou e Pequim têm concentrado seus esforços em ganhar influência na região. O resultado de tudo isso é uma paisagem geopolítica muito mais competitiva, com Rússia e China, unidas através da SCO, ganhando terreno em sua ofensiva para minimizar a influência norte-americana na região.

Uma amostra clara desta ofensiva foi o exercício militar realizado pela SCO no passado verão, o primeiro desta natureza, no qual participaram todos os estados membros. As manobras envolveram um total de 6.500 membros, procedentes do pessoal militar da China, Rússia, Kazaquistão, Quirguizistão, Tadjiquistão e Uzbequistão, e ocorreram na Rússia e na China. Além do seu significado simbólico, o exercício era indicativo dos esforços chineses e russos para melhorar suas capacidades militares, dando forte ênfase a tudo o que tivesse relação com suas forças de assalto a longa distância. Pela primeira vez um contingente de tropas chinesas aerotransportadas foi mobilizado fora do território chinês, um sinal claro da crescente autoconfiança de Pequim.

Para garantir que a mensagem destes exercícios não passasse desapercebida, os presidentes da China e da Rússia aproveitaram a ocasião para organizar uma cúpula da SCO no Quirguizistão e advertir os Estados Unidos (embora esse país não tenha sido mencionado) de que não permitiriam intromissões de nenhum tipo nos assuntos da Ásia Central. Em seu chamamento por um mundo “multipolar”, por exemplo, Vladimir Putin declarou que “qualquer tentativa de resolver problemas mundiais e regionais de maneira unilateral será em vão.” Por sua vez, Hu Jintao fez notar que “as nações da SCO conhecem com clareza as ameaças que a região enfrenta e devem garantir sua proteção por si mesmas.”

Estes e outros esforços da China e da Rússia, combinados com a escalada de ajuda militar norte-americana para alguns estados da região, são parte de uma maior, embora muitas vezes oculta, luta pelo controle do fluxo do petróleo e do gás natural da bacia do Mar Cáspio para os mercados da Europa e da Ásia. E esta luta, por sua vez, não é mais do que parte da luta mundial pelo controle da energia.

O maior risco desta luta é que ela, algum dia, exceda os limites da competição econômica e diplomática e entre em cheio no terreno militar. Não acontecerá, é claro, porque algum dos estados envolvidos tome a decisão deliberada de provocar uma guerra contra um dos seus concorrentes, porque os líderes de todos estes países sabem com certeza que o preço da violência é alto demais considerando o que obteriam em troca. O problema é, em compensação, que todos eles estão tomando parte em ações que fazem com que o início de uma escalada involuntária seja cada dia mais plausível. Estas ações incluem, por exemplo, a mobilização de um número cada vez mais elevado de conselheiros e instrutores militares americanos, russos e chineses em zonas de instabilidade nas quais estes estrangeiros podem acabar, qualquer dia, apanhados em bandos opostos em conflito.

O risco é ainda maior se considerarmos que a produção intensificada de petróleo, gás natural, urânio e minerais é, em si, uma fonte de instabilidade, que age como um imã para as entregas de armamento e a intervenção estrangeira. As nações envolvidas são quase todas pobres, portanto aquele que controlar os recursos vai controlar as únicas fontes seguras de abundante riqueza material. Esta situação é um convite para a monopolização do poder para que as elites cobiçosas utilizem seu controle sobre o exército e a polícia para eliminar seus rivais. O resultado de tudo isso é, quase sem exceção, a criação de um bando de capitalistas instalados firmemente no poder, os quais utilizam com brutalidade as forças de segurança e terminam rodeados por uma enorme massa de população desafeta e empobrecida, freqüentemente pertencente a um grupo étnico diferente, um caldo de cultivo idôneo para os distúrbios e a insurgência. Esta é, hoje em dia, a situação na zona do delta do Níger, na Nigéria, em Darfur e no sul do Sudão, nas zonas produtoras de urânio do Níger, no Zimbabue e na província de Cabinda, na Angola (onde está a maior parte do petróleo do país) e outras muitas zonas que sofrem o que tem sido denominado como “maldição dos recursos.”

O perigo está, nem precisa dizer, em que as grandes potências acabem imersas nestes conflitos internos. Não estamos traçando um cenário extemporâneo: EUA, Rússia e China estão proporcionando armamento e serviços de apoio militar às facções de muitas das disputas antes mencionadas: os EUA estão armando as forças governamentais na Nigéria e de Angola, a China proporciona ajuda às forças governamentais no Sudão e no Zimbabue, e a mesma coisa ocorre com o resto dos conflitos. Uma situação inclusive mais perigosa é a que existe na Geórgia, onde os EUA dão respaldo ao governo pró-ocidental do presidente Mijail Saakashvili, com armamento e apoio militar, enquanto a Rússia apóia as regiões separatistas de Abkhazia e Ossétia do Sul. A Geórgia tem um importante papel estratégico para ambos os países, porque é lá que está o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC), que tem o aval dos EUA e transporta petróleo do Mar Cáspio para os mercados ocidentais. Atualmente, há conselheiros e instrutores militares norte-americanos e russos em ambas as regiões, em alguns casos inclusive há contato visual entre uns e outros. Não é difícil, portanto, conjeturar um cenário no qual um choque entre as forças separatistas e a Geórgia leve, querendo ou não, a um enfrentamento entre soldados russos e americanos, dando lugar a uma crise muito maior.

É essencial que os EUA consigam inverter o processo de militarização da sua dependência de energia importada e diminuam sua competição com a China e a Rússia pelo controle de recursos estrangeiros. Fazendo isso, seria possível canalizar o investimento para as energias alternativas, o que levaria a uma produção energética nacional mais efetiva (com uma redução de preços no longo prazo) e proporcionaria uma ótima oportunidade para reduzir a mudança climática.

Qualquer estratégia focada em reduzir a dependência da energia importada, especialmente o petróleo, deve incluir um aumento do gasto em combustíveis alternativos, sobretudo fontes renováveis de energia (solar e eólica), a segunda geração de biocombustíveis (aqueles que são feitos a partir de vegetais não comestíveis), a gaseificação do carvão capturando as partículas de carbono no processo (de maneira que nenhuma dioxina de carbono escape para a atmosfera contribuindo com o aquecimento do planeta) e células de combustível hidrogênio, junto com um transporte público que inclua trens de alta velocidade e outros sistemas de transporte público avançados. A maior parte da ciência e da tecnologia para implementar estes avanços já está disponível, mas não as bases para tirá-los do laboratório ou da etapa de projeto piloto e promover seu desenvolvimento completo. O desafio é, então, o de reunir os milhares de bilhões —talvez trilhões— de dólares que serão necessários para isso.

O principal obstáculo para esta tarefa hercúlea é que desde o início choca com o enorme gasto que representa a competição militar pelos recursos de ultramar. Pessoalmente, considero que o custo atual de impor a doutrina Carter está entre os 100 e os 150 bilhões de dólares, sem incluir a guerra do Iraque. Estender essa doutrina para a bacia do Mar Cáspio e a África vai acrescentar muitos outros bilhões a essa conta. Uma nova guerra fria com China, com sua correspondente corrida armamentista naval, exigirá trilhões em gastos adicionais militares nas próximas décadas. Uma loucura: o gasto não vai garantir o acesso a mais fontes de energia, nem fará baixar o preço da gasolina para os consumidores, nem vai desanimar a China na sua busca por novas fontes de energia. O que realmente vai fazer será consumir o dinheiro que precisamos para desenvolver fontes de energia alternativas com as quais conjurar os piores efeitos da mudança climática.

Tudo isso nos leva à recomendação final: mais do que embarcar em uma competição militar com a China, o que deveríamos fazer é cooperar com Pequim no desenvolvimento de fontes de energia alternativas e sistemas de transporte mais eficazes. Os argumentos a favor da colaboração são esmagadores: estima-se que, juntos, os Estados Unidos e a China chegarão a consumir 35% das reservas mundiais de petróleo em 2025, e a maior parte dele terá que ser importado de estados disfuncionais. Se, como indicam amplamente as predições, as reservas mundiais de petróleo começarem a diminuir nessa época, nossos países estarão presos em uma perigosa luta por recursos cada vez mais limitados a zonas cronicamente instáveis do mundo. Os custos disso, em termos de gastos militares cada vez maiores e de uma inabilidade manifesta para investir em projetos sociais, econômicos e de meio ambiente que realmente valham a pena, serão inaceitáveis.

Razão de sobra para renunciar a este tipo de competição e trabalhar juntos no desenvolvimento de alternativas ao petróleo, nos veículos eficientes e em outras inovações energéticas. Muitas universidades e corporações chinesas e norte-americanas já começaram a desenvolver projetos conjuntos desta natureza, ou seja, que não deveria ser difícil prever um regime de cooperação ainda maior.

Na medida que em que vamos nos aproximando das eleições de 2008, abrem-se dois caminhos à nossa frente. Um nos leva a uma maior dependência dos combustíveis importados, a uma militarização crescente da nossa relação de dependência do petróleo estrangeiro e a uma luta prolongada com outras potências pelo controle das maiores reservas existentes de combustíveis fosseis. A outra, leva a uma dependência atenuada do petróleo como fonte principal dos nossos combustíveis, ao rápido desenvolvimento de alternativas energéticas, a um baixo perfil das forças norte-americanas no estrangeiro e à cooperação com a China no desenvolvimento de novas opções energéticas. Rara vez uma eleição política teve maior transcendência para o futuro do nosso país.

* Michael T. Klare é professor de Paz e Segurança mundial na Universidade de Hampshire. Seu último livro, “Rising Powers, Shrinking Planet: The New Geopolitics of Energy”, foi publicado por Metropolitan Books em abril.

Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores


Publicado em português na Agência Carta Maior, em 22/05/2008


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