Projeto do Fundo Social do pré-sal exige reparos

15 de janeiro de 2010

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Valor Econômico

15/01/2010

Projeto do fundo do pré-sal exige reparos

Claudia Safatle

Na discussão sobre o pacote de regulamentação da exploração do pré-sal, na Câmara, praticamente ninguém questionou ou se opôs à criação do Fundo Social. Proposto pelo projeto de lei 5.940, o fundo reunirá as receitas oriundas do petróleo para mitigar os riscos fiscais e cambiais a que a economia estará sujeita e, em consequência, fugir dos danos conhecidos na literatura como a “maldição do petróleo” (países ricos em petróleo, mas pobres e desindustrializados).

Por definição, essas receitas serão voláteis, sujeitas às variações dos preços da commodity no mercado internacional, mas vão financiar gastos públicos permanentes e, no caso brasileiro, crescentes desde os anos 90 do século passado.

Para chegar a uma ordem de grandeza do que poderá ser a receita petrolífera no futuro, os economistas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV ), fizeram algumas simulações, tomando como base o Produto Interno Bruto (PIB) atual, de R$ 3 trilhões, e a perspectiva de produção de um bilhão de barris em 2024, e do volume máximo de 2,3 bilhões de barris em 2034. Para isso, estabeleceram algumas hipóteses: crescimento do PIB per capita real de 3% ao ano entre 2010 e 2035; royalties e tributos de cerca de 60% da receita apurada com a extração do petróleo, tendo este preço em torno de US$ 80 o barril.

Sob estas condições, a arrecadação nas três esferas de governo (União, Estados e municípios) corresponderia a 1,6% do PIB em 2024, chegando a 2,7% do PIB em 2034. É claro que essa é apenas uma tentativa de mensuração, pois há muitas incertezas em jogo. Mas é uma conta plausível e significaria, hoje, pouco mais de R$ 80 bilhões.

Todos os países presenteados com grandes reservas de petróleo criaram seus fundos soberanos, embora esse não seja um modelo imperativo, como forma de apartar as receitas petrolíferas e criar regras transparentes para seu uso, tendo em vista inclusive a formação de poupança para futuras gerações. Apesar de o debate só fazer sentido quando o dinheiro começar a aparecer, lá pelo ano 2020, é agora que as decisões estão sendo tomadas.

A partir de fevereiro, quando termina o recesso parlamentar, o projeto de lei que cria o fundo de estabilização do petróleo deverá ser votado no plenário da Câmara e, de lá, seguirá para o Senado. O momento, portanto, é oportuno para discussão de mais fôlego sobre a sua importância na montagem do arcabouço regulatório do pré-sal, dada as implicações econômicas do manejo futuro das receitas dele decorrentes.

A Carta do Ibre, que será publicada na próxima semana, é dedicada ao tema e sugere alguns reparos ao projeto, para que o uso dos recursos do fundo seja capaz de equilibrar interesses políticos e setoriais não raro conflitantes. Ela chama a atenção, também, para um aspecto meio esquecido da arquitetura do pré-sal, que é a criação de instrumentos para que os Estados e municípios, que vão receber vultosas somas na partilha das receitas, evitem os desperdícios com obras absolutamente desnecessárias apenas porque sobram recursos.

O exemplo recorrente é de um dos municípios fluminenses forrados com dinheiro de royalties do petróleo, que cobriu com porcelanato o calçadão da praia. Construir um hospital modelo, ao invés de gastar com piso de porcelanato, certamente teria sido um uso mais correto dos royalties. Mas nenhum prefeito quer que seu município seja o receptor de doentes de todos os demais municípios do Estado, que carecem de bons hospitais.

Uma sugestão, conforme o diretor do Ibre, Luiz Guilherme Schymura, é que os Estados e municípios sejam incentivados, por lei federal ou alguma outra forma, a também formar fundos de estabilização, e que os governadores busquem estabelecer um sistema de coordenação intermunicipal no uso do dinheiro.

Há inúmeros formatos de fundos soberanos de estabilização de receitas do petróleo que o Ibre cita no texto da carta. Tal como definido no projeto de lei 5.940, o fundo brasileiro terá a função de estabilizar as receitas, constituir poupança pública e financiar projetos de desenvolvimento social. A fonte de receitas será a parcela da exploração do pré-sal, inclusive dos blocos já licitados, que cabe à União (incluindo bônus de assinatura, royalties e comercialização de petróleo e gás), e as rendas obtidas com a aplicação do dinheiro. Por um período ainda indefinido, porém, parcelas do principal poderão ser gastas.

A gestão e aplicação dos recursos do fundo ficarão a cargo do Comitê de Gestão Financeira do Fundo Social (CGFFS) e o Conselho Deliberativo do Fundo Social (CDFS). Ambos, assinala Shymura, terão composições definidas pelo Executivo, sem qualquer interferência do Congresso ou de outras instâncias da sociedade.

Para que a etapa de formação de poupança não seja sistematicamente adiada e os governos não gastem o principal do fundo, será fundamental que o Executivo “aja de boa fé no momento em que propuser ao Congresso a regulamentação definitiva do Fundo Social, tendo como objetivo uma distribuição equilibrada das receitas do pré-sal no curto, médio e longo prazos”, atenta o Ibre.

O modelo de gestão, fortemente concentrado nas mãos do Executivo, mais especificamente no grupo partidário e político que estiver no controle do governo, pode ser melhorado. A composição do CGFFS e do CDFS, definida por atos do Poder Executivo, reforça a concentração. Há exemplos distintos no mundo, que podem servir de exemplo de uma gestão mais compartilhada. No Alasca, o fundo tem personalidade jurídica e institucional independente. No Chile e na Noruega, um corpo técnico da burocracia de Estado gere o fundo e delimita o teto de gastos, cita a carta do Ibre. Uma possibilidade, aqui, poderia ser de um fundo independente fiscalizado pelo Tribunal de Contas da União.

O certo, porém, é que os fundos de estabilização não são uma panaceia fiscal e, como bem assinala o Ibre, não substituem o comprometimento do governo e da sociedade com a estabilidade macroeconômica mais ampla, incluindo o controle dos gastos públicos e da inflação.

Claudia Safatle é diretora-adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

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O Pré-Sal no Programa Multiponto da UFRGSTV

17 de dezembro de 2009

Diário do Pré-Sal

17/12/2009

Vídeo: O Pré-Sal no Programa Multiponto da UFRGS TV

Programa da TV Ufrgs entrevista especialistas sobre o petróleo da camada pré-sal, o novo marco regulatório, o modelo de exploração e o destino dos recursos do petróleo.

Dentre os entrevistados está o presidente regional da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET), Raul Tadeu Bergmann, o ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras e professor da USP, Ildo Sauer, os professores Rogério Dornelles Maestri, Luiz Augusto Estrella Faria, Ricardo Ayup Zouain, Vicente Ribeiro  e Lucas Kerr de Oliveira. O vídeo está dividido em três partes, podendo ser assistido a seguir:

Video:  “Pré-Sal” – no programa Multiponto – parte [1/3]

Video:  “Pré-Sal” – no programa Multiponto – parte [2/3]

Video:  “Pré-Sal” – no programa Multiponto – parte [3/3]

Pré-Sal – programa Multiponto – teaser


“O Brasil e o Pré-sal” – Primeiro Painel discute impacto do pré-sal na cadeia produtiva industrial regional

4 de dezembro de 2009

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Agência de Notícias da Assembléia Legislativa do RS

04/12/2009

SEMINÁRIO O BRASIL E O PRÉ-SAL

Ciclo econômico do Pré-sal pode favorecer a indústria gaúcha

Michele Limeira – MTB: 9733 | Agência de Notícias

Letícia Rodrigues – Edição – MTB 9373

Foto: Marco Couto / Ag AL

Painel discutiu o papel das empresas brasileiras e o potencial na indústria

Painel discutiu o papel das empresas brasileiras e o potencial na indústria

Os participantes do primeiro painel do seminário O Brasil e o Pré-sal – Uma nova perspectiva para o país e o Rio Grande do Sul avaliaram o Pré-sal como “grande desafio” que se apresenta ao Brasil. No debate, realizado esta manhã (4), no Teatro Dante Barone, da Assembleia Legislativa, os painelistas reconheceram o potencial e os diferenciais da indústria gaúcha, que pode se beneficiar do novo ciclo econômico que se desenha. O evento continua à tarde, com mais dois painéis. O presidente do Legislativo, deputado Ivar Pavan (PT), é o expositor do primeiro deles. Em seguida, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, tratará sobre a geopolítica do petróleo. Às 15h, Gabrielli concede entrevista coletiva à imprensa.

O plano de investimentos da Petrobrás, projetado para 2009 a 2013, é de U$ 174,4 bilhões, representando cerca de U$ 30 bilhões ao ano. Os números foram avaliados pelos painelistas como oportunidade para a indústria gaúcha, porém ressaltaram que existem desafios a serem superados. Segundo o expositor do painel “O papel das empresas brasileiras e o impacto na indústria”, Marcus Coester, coodenador do Comitê de Competitividade de Petróleo e Gás da Fiergs e vice-presidente da ABIMAQ, em 2008, o valor de compras da Petrobrás foi de U$ 45,2 bilhões, sendo que a participação no Estado como fornecedor ainda é baixa. “Em bens, o RS foi responsável por 1,31% das compras realizadas pela Petrobrás. Nas contratações de serviços, a participação ficou em 0,88%”, exemplificou Coester. Na sua avaliação, esses números precisam crescer e o Comitê da Fiergs trabalha com esse objetivo.

Os diferenciais da indústria gaúcha podem contribuir para avanços nesta área. Diversificação, fabricação de produtos especiais, programas de qualidade, tecnologia e pesquisa de ponta e mão de obra qualificada foram as características apontada por Coester. O vice-presidente da Fiergs, Humberto Busnello, destacou a “forte cultura empreendedora” como o principal representante do potencial dos gaúchos. “A indústria gaúcha precisa aproveitar o orçamento da Petrobrás”, frisou, lembrando que para isso é necessário “eliminar alguns gargalos”. Busnello considera necessário desonerar os investimentos para garantir a competitividade. “Precisamos de condições para que as empresas tenham desenvolvimento tecnológico”, pontuou.

“Taxar investimentos é desfavorável para competitividade”, avaliou o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Álvaro Alves Teixeira. Para os painelistas, na questão do custo Brasil está um dos principais desafios à indústria. O coordenador do Comitê da Fiergs, Marcus Coester, explicou que para enfrentar o mercado internacional competitivo é preciso desonerar os investimentos, enfrentar a guerra fiscal e as dificuldades da isonomia da indústria gaúcha, criar programas de financiamento competitivos em nível nacional, desenvolver o marco legal, a certificação de empresas e a cadeia produtiva, dentre outros aspectos.

Classificado como “bênção para o Brasil”, o Pré-sal, segundo o presidente da Fundação de Economia e Estatística, Adelar Fochezatto, pode impactar sobre o desenvolvimento da indústria. “Os principais efeitos seriam sobre os setores diretamente ligados a cadeia produtiva do petróleo, de máquinas e equipamentos, produtos químicos, transporte, serviços industriais de utilidade pública, como energia e saneamento”, analisou.

Tecnologia

O desenvolvimento de novas tecnologias também é um dos aspectos que se sobressaiu no debate desta manhã. Segundo Marcus Coester, a Petrobrás tem tecnologia exclusiva para o desenvolvimento de pesquisas sobre o Pré-sal, o que é avaliado como uma vantagem com relação a outros países, assim como a situação do Brasil em relação à geopolítica do Atlântico Sul.

Segundo ele, as inovações tecnológicas implicam em desenvolvimento econômico, que gera desenvolvimento humano, capaz de tornar as pessoas mais criativas e inovadoras. “É um ciclo necessário para que tenhamos uma sociedade desenvolvida”, explicou.

Coester avaliou que a automação é um considerada um dos principais desafios a serem superados para viabilizar a instalação de plataformas a 300 quilômetros da costa, como exigirá a exploração da camada pré-sal.

Energia

O presidente da Fundação de Economia e Estatística, Adelar Fochezatto, reforçou a importância de investimentos em tecnologia e pesquisas e alertou para a transição pela qual passa o atual sistema energético. “Temos que ser inteligentes para não ficarmos reféns da matriz energética do petróleo”, observou. Fochezatto chamou a atenção para o desenvolvimento de uma matriz baseada na energia limpa. “O futuro passa pelas fontes de energia e sustentabilidade ambiental”, sublinhou.

Promoção

O Seminário é uma promoção da Petrobrás, organizado pela Revista Voto, com apoio institucional da Assembleia Legislativa e do Comitê Gaúcho em Defesa do Pré-Sal.

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Mais notícias da Assembléia Legislativa sobre a primeira parte do Seminário “O Brasil e o Pré-Sal”:

Pavan propõe reflexão sobre o significado do Pré-sal para a sociedade brasileira

Indústria gaúcha deve se preparar para fornecer suporte à exploração em alto-mar


O economista de Alckmin e o pré-sal

23 de novembro de 2009

http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/11/23/o-economista-de-alckmin-e-o-pre-sal/#more-39547

Coluna do Luis Nassif

23/11/2009

O economista de Alckmin e o pré-sal

Luis Nassif

Um dos sofismas mais comuns aos cabeças de planilha é levantar UMA relação causal – em qualquer análise -, superestimá-la, como se fosse a única,e não relativizá-la (não mostrando seu peso específico) a fim de poder trabalhar na sua dramatização.

Na semana passada, o Márcio Garcia – PUC-RJ – escreveu um artigo sobre a desvalorização do câmbio. Em suma dizia que se desvalorizar o câmbio, se aquecer a economia, se não houver infraestrutura, bate-se no PIB potencial e explode a inflação. É assim, simples, lembrando uma diretora de escola que suspendeu um aluno que colocou uma galinha no porta-mala: se hoje coloca uma galinha, amanhã colocará uma criança. É como se a economia tomasse um rumo inevitável, sem gradações, sem contrapesos, na direção única do abismo.

Agora é o incrível Samuel Pessôa – o economista que deu o nó no cérebro do Geraldo Alckmin, tornando-se responsável por suas idéias econômicas nas últimas eleições – que prevê um desastre para o país se se decidir tocar o Pré-Sal com maioria de fornecedores internos. Ou seja, uma política que gere industrialização, emprego, aumento da receita tributária, desenvolvimento tecnológico…. poderá acabar com o Brasil. Me lembra o jornalista americano do jornal Rio News que, no início do século, já falava sobre essa fantástica lógica ortodoxa-kantiana dos economistas brasileiros, já na época de Joaquim Murtinho: eles propõem o contrário de tudo o que fizemos nos EUA e dizem que, se fizerem assim, conseguirão o desenvolvimento.

É uma lógica surrealista a dele. Confira na matéria. Que, aliás, comprova que, nos últimos anos, o outroa respeitado IBRE-FGV se transformou em uma colcha de retalhos de refrões econômicos.

Do Valor Econômico

Ambição com o pré-sal pode virar desastre, diz Pessôa

Leia mais – Texto comentado por Luis Nassif  – »

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Programa Multiponto da UFRGS TV discute pré-sal

11 de novembro de 2009

11/11/2009

Multiponto “Pré-sal”

O programa Multiponto, da UFRGS TV (Canal 15 da NET) apresenta dia 12 de Novembro às 21:30, o especial sobre “Pré-Sal”.


Nesta terça 27/10/2009 – Audiência pública no Senado discutirá criação do Fundo Social do pré-sal

26 de outubro de 2009

Diário do Pré-Sal

26/10/2009

Audiência pública no Senado discutirá criação do Fundo Social do pré-sal

Lucas K. Oliveira

Senado Federal - Brasilia, DF.   Foto: Lucas K. Oliveira

Acontece amanhã (27/10) no Senado, a audiência pública que vai discutir a criação do Fundo Social, que receberá a renda petrolífera do governo referente à exploração do pré-sal. Esta é a terceira audiência pública para discutir o novo marco regulatório do pré-sal, como parte de um ciclo de debates organizados pela Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI). A audiência ocorre às 8h30 desta terça-feira, na sala 13 da ala Alexandre Costa.

A criação do fundo está prevista em dois projetos de Lei discutidos pela mesma comissão, o PL 5.417/2009, apresentado pelo deputado Pedro Eugênio (PT-PE), e o PL 5.940/2009, apresentado pelo Executivo.

O Fundo Social  receberá rendimentos da exploração petrolífera, como outros Fundos Petrolíferos existentes em países ou províncias exportadoras de petróleo no mundo. Normalmente, a função destes fundos é reinvestir a renda petrolífera em outros setores da economia.  Entretanto, este Fundo também deve funcionar simultaneamente como Fundo Soberano. A princípio, o Fundo Social deverá atuar como dois tipos de Fundos Soberanos, como um Fundo de Estabilização ou de Estabilização Cambial e como um Fundo para as gerações Futuras. Os Fundos Soberanos do tipo Fundo de Estabilização investem o excedente de dólares das exportações petrolíferas no exterior, evitando a sobrevalorização cambial e o “mal holandês”, assim como as grandes flutuações no câmbio quando o preço do petróleo muda. Os Fundos para as Gerações Futuras normalmente recolhem parte da renda de recursos finitos para reinvestir em outros setores da economia não-petrolífera, inclusive atividades produtivas e de serviços, ou  na aquisição de bens e ativos financeiros seguros, que garantam às futuras gerações uma fonte de renda quando a renda petrolífera não existir mais.

Dentre as idéias discutidas na Câmara e no Senado,  destaca-se a preferência para que o Fundo Social realize primeiro investimentos  com esta renda petrolífera em aplicações no Brasil e no exterior que resultem em rendimento seguro, para depois utilizar estes rendimentos obtidos na “área social”, como educação e cultura, tecnologia e infra-estrutura, combate a pobreza e talvez na saúde e na habitação.

Plataforma petrolífera da Petrobrás no RJ

Críticas aos principais problemas do PL 5.940/2009 e algumas sugestões

Dentre os principais problemas do PL 5.940/2009, em discussão na Câmara e no Senado, está a centralização excessiva do processo de tomada de decisão sobre os investimentos, nas mãos do Comitê de Gestão Financeira do Fundo Social (CGFFS), inteiramente nomeado em Ato do Executivo. Sem participação massiva da sociedade civil neste comitê, corre-se o sério risco de que  qualquer mudança de governo, resulte em mudanças  de toda a política de investimentos do Fundo. Além disso, é grande a chance de que um pequeno grupo de economistas nomeados para controlar este Comitê,  decida investir os rendimentos do Fundo no setor financeiro-especulativo, como por exemplo, na aquisição de “ativos”  nas Bolsas de Valores internacionais. Afinal, o PL 5.940/2009 prevê esta possibilidade.

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Senado questiona projetos do pré-sal

21 de outubro de 2009

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091021/not_imp453873,0.php
Quarta-Feira, 21 de Outubro de 2009

Senado questiona projetos do pré-sal

Levantamento da consultoria legislativa aponta inconstitucionalidades no marco regulatório proposto pelo governo

Christiane Samarco

BRASÍLIA

Os quatro projetos que regulamentam a exploração do petróleo na camada do pré-sal estão em debate na Câmara, mas a Consultoria Legislativa do Senado já fez um levantamento do que os técnicos chamam de “inconstitucionalidades” do marco regulatório proposto pelo Planalto.

Assinado pelo consultor Francisco Chaves, o documento do Senado analisa detalhadamente os projetos e diz que o governo se concedeu uma liberdade exagerada para gastar o dinheiro do Fundo Social e para criar privilégios inconstitucionais para a Petrobrás. Afirma, ainda, que o governo confunde o interesse comercial de uma sociedade de economia mista, como a Petrobrás, com o interesse público nacional.

Pelo artigo 173 da Constituição, as empresas públicas e as sociedades de economia mista não podem gozar de privilégios fiscais não extensivos ao setor privado. Chaves adverte que o termo “fiscal” é muito mais amplo do que o “tributário”, porque está associado “à atuação do Estado na consecução de seus objetivos”. E adverte: “A lei não pode violar o princípio constitucional da igualdade”.

Na proposta do governo, a Petrobrás tem tratamento diferenciado e privilegiado em relação às demais pessoas jurídicas de direito privado que disputam com ela o mercado. A estatal tem a garantia de sempre ser contratada pela União para explorar e produzir petróleo, gás natural e outros hidrocarbonetos fluidos em regime de partilha de produção no pré-sal.

A proposta do governo também obriga empresas privadas, e mesmo a Petrobrás, a formar vínculos associativos compulsórios. O documento do Senado pondera que uma coisa é dar à empresa a opção de concorrer para explorar jazidas minerais em consórcio com estatais, e outra é obrigá-la a se associar, sob pena de ser alijada por completo da atividade econômica. Além de serem obrigadas a formar consórcios, as empresas sempre terão como parceiros a Petrobrás e a Petro-Sal.

Para a Consultoria do Senado, o marco regulatório do pré-sal também revoga, por lei, o princípio da livre concorrência previsto no artigo 177 da Constituição. Com a participação compulsória da Petrobrás estabelecida em lei, Chaves avalia que o governo “ressuscita” o monopólio da estatal, quebrado pela Emenda Constitucional nº 9.

O documento que embasa os debates prévios entre os senadores mostra que o governo tratou a Petrobrás como sinônimo de “interesse público nacional” ao decidir que a capitalização da estatal será feita com a cessão de 5 bilhões de barris na camada do pré-sal pelo novo regime de partilha de produção – o que pode render à empresa, que não é uma estatal, até US$ 50 bilhões. Isso significa, na prática, que o governo abre mão de um patrimônio público, que é de todos, para uma sociedade de economia mista que tem ações em bolsa e não pode ser confundida com o Estado.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem dito que toda a riqueza do pré-sal será aplicada na área social, sobretudo em educação. Mas o projeto do governo não traz essa garantia. Ao contrário, abre uma brecha para que outra destinação seja dada aos recursos do fundo.

Pelo projeto que regula o contrato de partilha (PL 5.938/09), a União, “por intermédio de um fundo específico criado por lei, poderá participar dos investimentos nas atividades de exploração e produção na área do pré-sal e em áreas estratégicas”. Não é o que diz outra proposta incluída no pacote, segundo o documento da consultoria do Senado.

O artigo 9º do projeto de lei 5.940, que trata do Fundo Social, prevê a criação de um outro fundo específico, com recursos do Fundo Social, e ainda diz que isso não se dará por lei. Pior: o artigo que trata da finalidade do tal fundo específico prevê a aplicação em ativos no Brasil e no exterior, mas deixa tudo em aberto e não especifica que ativos serão estes.

Ao definir as receitas que vão compor o Fundo Social, o projeto inclui os royalties da União, mas deixa dúvidas novamente. Não explicita se serão integrados apenas os royalties derivados dos contratos de partilha, ou se também aqueles decorrentes da exploração fora da área do pré-sal e em outro regime entrarão na composição do Fundo.

DÚVIDAS JURÍDICAS

1. Exploração de jazidas, em lavra ou não, por particulares

Como é: Pela Constituição (Art. 176), os únicos regimes para que particulares possam explorar jazidas de petróleo, em lavra ou não, são a autorização e a concessão.

No Pré-Sal: O PL 5.938 de 2009 cria novo regime de exploração e produção de petróleo: o Contrato de Partilha de Produção. O novo modelo é criado por lei e os consultores do Senado advertem que a mudança só poderia ser feita por Emenda Constitucional (PEC).

2. Propriedade do produto da lavra das jazidas de petróleo e gás natural

Como é: A atividade da exploração é monopólio da União, mas sua execução, não. Diz a Constituição que, se a União optar por contratar, deve fazê-lo sob o regime de autorização ou de concessão. Na concessão, a propriedade do produto da lavra é do concessionário.

No Pré-Sal: Na partilha da produção de descoberta comercialmente viável quem explora e produz “apenas adquire direito à restituição do custo em óleo, bem como a parcela do excedente em óleo”.

3. Execução das atividades de exploração e produção

Como é: A Petrobrás disputa mercado. Vale o Artigo 170 da Constituição, segundo o qual “a ordem econômica é fundada na livre concorrência”. A União “poderá” contratar com empresas estatais ou privadas a pesquisa e exploração das jazidas de petróleo e gás.

No Pré-Sal: Todas as atividades de exploração, avaliação, desenvolvimento e produção terão como operador a Petrobrás, com participação compulsória.

4. Contratação dos serviços

Como é: A Constituição, em seu Art. 176, garante ao concessionário a propriedade do produto e estabelece que a pesquisa e o aproveitamento dos potenciais “somente poderão ser efetuados mediante autorização ou concessão da União, no interesse nacional”.

No Pré-Sal: O projeto estabelece que, “se for do interesse da estatal”, ela (a Petrobrás) poderá contratar as atividades com terceiros.

5. Consórcios

Como é: Vale a regra constitucional da livre iniciativa. As empresas privadas formam os vínculos associativos que desejam e disputam as licitações.

No Pré-Sal: A participação de parceiros privados no comitê operacional que vai gerenciar o consórcio será sempre minoritária. A Petro-Sal terá a metade dos membros do conselho e a Petrobrás terá participação mínima de 30% da metade restante.

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O projeto governamental de Fundo Social do pré-sal: Problemas reais, imaginários, críticas e algumas propostas

20 de outubro de 2009

Comentários ao texto publicado em 20/10/2009: Ex-ministro diz que pré-sal pode causar desindustrialização

20/10/2009

O projeto governamental de Fundo Social do pré-sal:

Problemas reais, imaginários, críticas e algumas propostas

Lucas Kerr de Oliveira

Editor do Diário do Pré-Sal

Parece que a única coisa que o ex-ministro acertou em cheio foi no diagnóstico do risco que representa o “mal holandês”. Também conhecida como “doença holandesa”, quando o excesso de dólares sobrevaloriza o câmbio, é um problema sério pois pode provocar desindustrialização.
Também é interessante a defesa do ex-ministro de que o Fundo Social deva funcionar como um “Fundo para as Gerações Futuras”. Mas a justificativa que o ex-ministro usa é frágil, se apequena diante da grandiosidade do projeto, mas terá que ser polemizada a seguir.
Também é interessante alguma remuneração para os integrantes do Conselho Gestor, especificamente para os representantes da sociedade civil organizada. Para os que já são funcionários públicos, obviamente, não haveria esta necessidade.

No restante da argumentação, o ex-ministro está absolutamente equivocado.

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Ex-ministro diz que pré-sal pode causar desindustrialização

20 de outubro de 2009

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Agência Câmara
20/10/2009

Ex-ministro diz que pré-sal pode causar desindustrialização

O ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, presidente da MCM Consultores Associados, e o consultor Cláudio Adilson Gonçalez, da Tendência Consultoria, criticaram hoje alguns pontos do projeto de lei que cria o Fundo Social com recursos da venda do petróleo da camada pré-sal.

Os dois foram ouvidos pela comissão especial que analisa a criação do fundo (PLs 5417/09 e 5940/09).

O projeto foi defendido na mesma audiência por representantes do Ministério da Fazenda e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do Ministério do Planejamento.

Mailson defendeu que o Fundo seja soberano, podendo aplicar recursos no exterior e evitar a chamada “doença holandesa”, segundo a qual um aumento de receita decorrente da exportação de recursos naturais irá desindustrializar o País em razão da valorização cambial, que torna o setor manufatureiro menos competitivo aos produtos externos.

Mailson disse que o fundo proposto pelo governo tem que se preocupar com as futuras gerações e não gastar todos seus recursos imediatamente, mesmo com as carências enormes existentes no País.

Conselho
O ex-ministro afirmou que o Fundo Social vai ter seus recursos administrados por um conselho que vai indicar de forma burocrática e discricionária como gastar os recursos.

Ele criticou o fato de os membros do conselho deliberativo do Fundo Social serem representantes da sociedade civil e não receberem salários. Para Mailson, os representantes têm que ser indicados por notório saber na área econômica e financeira, devem ser pagos pelo trabalho e poderiam ser oriundos da iniciativa privada.

Já o consultor Cláudio Adílson Gonçalez manifestou preocupação com o fato de parlamentares defenderem que o Fundo gaste seus recursos imediatamente, com investimentos em áreas não prioritárias.

Ele observou que os economistas são malvistos quando defendem certas ideias, como a aplicação de recursos no exterior, justificando que o país tem que vender dólares para adquirir reais.

Gonçalez disse que não se pode perder de vista a preocupação com o desenvolvimento e o crescimento a longo prazo e que o projeto deve ter mecanismos para a internação dos recursos advindos da exploração do Pré-Sal.

Metas
O pesquisador do Ipea Sérgio Ruff Gobetti defendeu que o País estabeleça metas de como gastar os recursos do Fundo Social, calculando o superávit primário do país, com e sem os recursos do petróleo.

Segundo Sérgio Gobetti, esse cálculo ajudaria a fixar metas mais claras, a fim de que não se gastasse de maneira irresponsável os recursos do fundo.

Ele concordou com o consultor Cláudio Gonçalez de que os recursos do Fundo poderiam ser usados para o abatimento da dívida do País, levando em conta os altos juros da dívida.

Flexibilidade
O secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, defendeu a flexibilidade do projeto que cria o Fundo Social, afirmando que ele poderá se adaptar e mudar de critérios ao longo do tempo da exploração da área do pré-sal

Ele negou que o Conselho Deliberativo do Fundo vá se sobrepor às diretrizes traçadas pelo Plano Plurianual e pelos orçamentos votados pelos congressistas.

Nelson Barbosa negou ainda que o projeto signifique um cheque em branco ao governo ou que permita a Fundo Social atender a clientela política do eventual governante. Ele disse que o atual governo geriu de maneira responsável os recursos da reserva do país que chegaram a mais de 40 bilhões de dólares.

O presidente da comissão, deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), afirmou que o Fundo Social tem que ter um caráter híbrido, social e soberano, que atenda sobretudo à educação, à tecnologia e ao meio-ambiente.

Reportagem – Paulo Roberto Miranda /Rádio Câmara

Edição – Wilson Silveira

Agência Câmara

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A exploração do pré-sal e o futuro brasileiro

30 de novembro de 2008

Jornal da Universidade

Novembro de 2008

A exploração do pré-sal e o futuro brasileiro

Energia: Especialistas dizem que benefícios vão depender da política adotada pelo governo federal

Paula Vieira


Em novembro de 2007, a Petrobras anunciou a descoberta da primeira reserva do que, mais tarde, viria a público como pré-sal. Com cerca de 5 a 8 milhões de barris de petróleo, o Campo de Tupi, situado a 6 mil metros de profundidade na Bacia Sedimentar de Santos, foi considerado a maior jazida encontrada no mundo desde 2000. Com a possibilidade de uma reserva gigantesca, surgem questionamentos acerca dos problemas e benefícios que a descoberta pode trazer ao país.

Há 120 milhões de anos, quando América do Sul e África estavam em vias de separação, o Atlântico Sul começou a se formar e com ele o pré-sal. Fendas geradas a partir da divisão dos dois continentes acumulavam água do oceano que, ao passar para o estado de vapor, deixava sobre as rochas camadas de evaporito, popularmente conhecido como sal. Exposta a altas temperaturas e grande pressão, a matéria orgânica que se encontrava abaixo da camada de sal transformou-se em combustível fóssil. Com o passar do tempo, outros sedimentos foram se depositando sobre o evaporito e compondo o relevo submarino brasileiro. As altas temperaturas e a grande pressão desse depósito transformaram a matéria orgânica abaixo do pré-sal em combustível fóssil. Segundo o doutor em Geociências e professor da UFRGS Michael Holz, “geólogos afirmavam haver petróleo nessa camada há muito tempo, mas era complicado fazer um estudo. As reservas se encontravam a grandes profundidades, podendo chegar a mais de 7 mil metros, e, na época, poucos países tinham acesso à técnica de prospecção rochosa necessária. Hoje, a Petrobras é uma das poucas companhias que domina esse tipo de tecnologia”.

Estimativas da empresa apontam que, ao longo da faixa que se estende do litoral do Espírito Santo a Santa Catarina pode existir de 70 a 100 bilhões de barris de óleo leve (petróleo que necessita de pouco refinamento), além de reservas de gás natural. Nessa perspectiva estão englobadas duas bacias sedimentares: Campos e Santos. Para o professor Holz, “existem muitas áreas com rochas reservatórios abaixo da camada de sal. O que fará com que ainda leve um bom tempo até que o mapeamento bacia por bacia seja completado e se saiba, com precisão, a quantidade e as áreas onde está localizado o combustível. Só então a explotação (retirada de petróleo) poderá iniciar”.

Brasil potência — Antes da descoberta do pré-sal, as jazidas brasileiras comportavam cerca de 14,4 bilhões de barris, índice que deixava o país na 24ª posição no ranking das nações com reservas de hidrocarbonetos. Caso as estimativas se confirmem, teremos um total de 100 bilhões de barris em nossas reservas.

O petróleo é considerado por muitos uma “bênção-maldição”. Dependendo de como seu lucro é gerido, pode ajudar na solução de problemas sociais ou levar as nações ao caos e à miséria, como ocorreu em alguns países da África e Oriente Médio. Essa é a visão do mestre em Relações Internacionais pela UFRGS, Lucas Kerr de Oliveira: “Petróleo não deixa nenhum país rico automaticamente, mas seu uso planejado tornou alguns países muito prósperos”. Para o professor da Faculdade de Ciências Econômicas Luiz Miranda, “não é apenas uma quantidade maior de renda que vai gerar renda. A distribuição já é possível com o que se tem hoje, mas precisa haver interesse em se fazer isso”.

Com o pré-sal, o Brasil pode não só se tornar auto-suficiente, como também exportar óleo refinado e derivados. No entanto, Oliveira lembra que a exportação excessiva de commodity, como o petróleo,pode gerar sérios problemas ao país como a supervalorização cambial, conhecida como “mal holandês”. A valorização excessiva do real poderia baratear as importações e prejudicar os setores produtivos, provocando até a desindustrialização do país. O professor acrescenta que, se souber utilizar esses recursos para ampliar suas capacidades política, militar, econômica e cultural, o Brasil poderia se tornar uma potência. “Contudo, isso vai depender da capacidade do governo em gerenciar os recursos estratégicos do país, mantendo a soberania sobre os mesmos. Se a gente permitir que as grandes corporações decidam tudo, vamos continuar concentrando poder e renda e gerando desigualdades cada vez maiores.”

Desafios da prospecção

Quando se fala em prospecção em alto mar, logo vem à cabeça grandes acidentes, como a explosão na plataforma P-36 que matou 11 operários da Petrobras, em 2001. Eduardo Guimarães Barboza, professor do Instituto de Geociências com atuação nas áreas de Estratigrafia e Sensoriamento Remoto, alerta para o fato de que um acidente ocorrido próximo à região costeira gera impactos ambientais significativos, já que atinge uma biota (fauna e flora de uma determinada área) muito mais rica, além do recolhimento do óleo ser mais trabalhoso. Mas acredita que as possibilidades de impactos ambientais diminuem na extração da camada pré-sal.

O doutor em Engenharia Metalúrgica e de Materiais, Telmo Roberto Strohaecker, concorda com a observação do colega: “A meta da Petrobras é vazamento zero. Em caso de vazamento, as válvulas são fechadas automaticamente. Ninguém quer perder óleo.”

Porém, o que mais preocupa as empresas petrolíferas não é a lâmina de água, mas transpassar a camada de sal. Conforme o professor Barboza, o sal possui um comportamento plástico, não é rocha completamente sólida. “Quando a broca perfura o sal, a tendência é que o buraco se feche em função da grande pressão”, esclarece o geólogo. Além disso, as camadas não são contínuas. Há barreiras entre elas, uma vez que as rochas que compõem os reservatórios estão encaixadas em “depressões”- explica Barboza, acrescentado que cada campo de petróleo é formado por diversos reservatórios. “Não há possibilidade de furar em um ponto específico e drenar toda a área” – afirma o pesquisador.

Telmo Strohaecker ressalta que a prospecção desgasta equipamentos e demanda investimentos tecnológicos significativos. Segundo ele, qualquer operação de sondagem envolve custos de milhões de dólares, o que acaba exigindo grande precisão durante o mapeamento.
Eduardo Barboza acredita que explorar as reservas do pré-sal é possível não apenas em termos tecnológicos. “Pelo preço elevado do barril de petróleo, hoje a extração tornou-se rentável. Se o preço caísse para, por exemplo, o valor de dez anos atrás, a Petrobras não iria explotar os reservatórios abaixo do sal.”

Professores apontam dificuldades na criação de nova estatal

Até 1997, a União monopolizava as atividades que envolviam petróleo e gás natural no país, com a Petrobras exercendo com exclusividade, além da exploração e produção, o refino, o transporte, a importação e a exportação de combustível fóssil. Com a promulgação da Lei do Petróleo, o governo federal passou a estabelecer contratos com empresas estatais e privadas para a realização dessas atividades. Atualmente, o modelo adotado pelo Brasil é o de concessões, em que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), órgão regulador, promove estudos para delimitar em blocos parte de uma bacia sedimentar. Em seguida, essas áreas são leiloadas em rodadas, nas quais empresas privadas podem adquirir blocos por licitação, para a exploração e a produção de óleo e gás. A Petrobras, como uma empresa de capital misto (público e privado), não possui nenhum privilégio nessas licitações.

Em 2007, o Conselho Nacional de Política Energética determinou que fossem retirados 41 blocos da 9ª rodada de licitações, todos com potencial de produção na camada pré-sal. A resolução também exigiu uma avaliação das mudanças necessárias no marco legal, contemplando um novo paradigma de exploração e produção de combustível fóssil.

Sem uma decisão oficial da comissão interministerial formada pelo Executivo para discutir o assunto, surgiram especulações sobre a criação de uma nova estatal para cuidar da exploração das jazidas a serem descobertas.

Sobre essa possibilidade, os especialistas da UFRGS foram unânimes: não acreditam ser possível a construção de uma nova empresa. Para o professor de Engenharia Telmo Stro-haecker, levaria muito tempo até que a companhia desenvolvesse tecnologia a ponto de ser reconhecida no mercado internacional. Eduardo Barboza, docente do Instituto de Geociên-cias, acha que o primeiro problema seria a falta de mão-de-obra qualificada.

Luiz Miranda, economista e professor da Faculdade de Ciências Econômicas, diz que o correto seria fortalecer a Petrobras, aumentando a participação do governo na empresa através da compra de ações ou da estatização da mesma. E questiona o modelo de concessões, afirmando que o petróleo é estratégico e não deveria ser tratado como mais uma commodity em mercado. “Os setores conservadores da sociedade brasileira defendem o modelo norte-americano, esquecendo que as empresas privadas são norte-americanas. Dessa maneira, nação e capital privado não têm dissonância quanto aos interesses estratégicos do país.” O professor substituto do Departamento de Ciência Política da UFRGS, Lucas Kerr Oliveira concorda  e propõe a adoção do modelo norueguês, no qual o governo tem participação acionária em todas as empresas petrolíferas atuantes em seu território. Para Oliveira, outra solução seria criar um fundo para as gerações futuras, que recolheria uma taxa sobre a exploração de petróleo para reinvestir na pesquisa de novas fontes de energia. “É quase imoral explorar um recurso tão rico sem deixar nada para as próximas gerações”, conclui.

Paula Vieira, estudante do 3º semestre de Jornalismo da Fabico – especial para o Jornal da Universidade


Jornal da Universidade, UFRGS,  nº 113, ano XII, Novembro de 2008, p. 5.

http://www.ufrgs.br/comunicacaosocial/jornaldauniversidade/113/pagina5.htm

A exploração do pré-sal e o futuro brasileiro

15 de novembro de 2008

http://www.ufrgs.br/comunicacaosocial/jornaldauniversidade/113/pagina5.htm

Jornal da Universidade

Novembro de 2008

A exploração do pré-sal e o futuro brasileiro

Energia: Especialistas dizem que benefícios vão depender da política adotada pelo governo federal

Paula Vieira


Em novembro de 2007, a Petrobras anunciou a descoberta da primeira reserva do que, mais tarde, viria a público como pré-sal. Com cerca de 5 a 8 milhões de barris de petróleo, o Campo de Tupi, situado a 6 mil metros de profundidade na Bacia Sedimentar de Santos, foi considerado a maior jazida encontrada no mundo desde 2000. Com a possibilidade de uma reserva gigantesca, surgem questionamentos acerca dos problemas e benefícios que a descoberta pode trazer ao país.

Há 120 milhões de anos, quando América do Sul e África estavam em vias de separação, o Atlântico Sul começou a se formar e com ele o pré-sal. Fendas geradas a partir da divisão dos dois continentes acumulavam água do oceano que, ao passar para o estado de vapor, deixava sobre as rochas camadas de evaporito, popularmente conhecido como sal. Exposta a altas temperaturas e grande pressão, a matéria orgânica que se encontrava abaixo da camada de sal transformou-se em combustível fóssil. Com o passar do tempo, outros sedimentos foram se depositando sobre o evaporito e compondo o relevo submarino brasileiro. As altas temperaturas e a grande pressão desse depósito transformaram a matéria orgânica abaixo do pré-sal em combustível fóssil. Segundo o doutor em Geociências e professor da UFRGS Michael Holz, “geólogos afirmavam haver petróleo nessa camada há muito tempo, mas era complicado fazer um estudo. As reservas se encontravam a grandes profundidades, podendo chegar a mais de 7 mil metros, e, na época, poucos países tinham acesso à técnica de prospecção rochosa necessária. Hoje, a Petrobras é uma das poucas companhias que domina esse tipo de tecnologia”.

Estimativas da empresa apontam que, ao longo da faixa que se estende do litoral do Espírito Santo a Santa Catarina pode existir de 70 a 100 bilhões de barris de óleo leve (petróleo que necessita de pouco refinamento), além de reservas de gás natural. Nessa perspectiva estão englobadas duas bacias sedimentares: Campos e Santos. Para o professor Holz, “existem muitas áreas com rochas reservatórios abaixo da camada de sal. O que fará com que ainda leve um bom tempo até que o mapeamento bacia por bacia seja completado e se saiba, com precisão, a quantidade e as áreas onde está localizado o combustível. Só então a explotação (retirada de petróleo) poderá iniciar”.

Brasil potência — Antes da descoberta do pré-sal, as jazidas brasileiras comportavam cerca de 14,4 bilhões de barris, índice que deixava o país na 24ª posição no ranking das nações com reservas de hidrocarbonetos. Caso as estimativas se confirmem, teremos um total de 100 bilhões de barris em nossas reservas.

O petróleo é considerado por muitos uma “bênção-maldição”. Dependendo de como seu lucro é gerido, pode ajudar na solução de problemas sociais ou levar as nações ao caos e à miséria, como ocorreu em alguns países da África e Oriente Médio. Essa é a visão do mestre em Relações Internacionais pela UFRGS, Lucas Kerr de Oliveira: “Petróleo não deixa nenhum país rico automaticamente, mas seu uso planejado tornou alguns países muito prósperos”. Para o professor da Faculdade de Ciências Econômicas Luiz Miranda, “não é apenas uma quantidade maior de renda que vai gerar renda. A distribuição já é possível com o que se tem hoje, mas precisa haver interesse em se fazer isso”.

Com o pré-sal, o Brasil pode não só se tornar auto-suficiente, como também exportar óleo refinado e derivados. No entanto, Oliveira lembra que a exportação excessiva de commodity, como o petróleo,pode gerar sérios problemas ao país como a supervalorização cambial, conhecida como “mal holandês”. A valorização excessiva do real poderia baratear as importações e prejudicar os setores produtivos, provocando até a desindustrialização do país. O professor acrescenta que, se souber utilizar esses recursos para ampliar suas capacidades política, militar, econômica e cultural, o Brasil poderia se tornar uma potência. “Contudo, isso vai depender da capacidade do governo em gerenciar os recursos estratégicos do país, mantendo a soberania sobre os mesmos. Se a gente permitir que as grandes corporações decidam tudo, vamos continuar concentrando poder e renda e gerando desigualdades cada vez maiores.”

Desafios da prospecção

Quando se fala em prospecção em alto mar, logo vem à cabeça grandes acidentes, como a explosão na plataforma P-36 que matou 11 operários da Petrobras, em 2001. Eduardo Guimarães Barboza, professor do Instituto de Geociências com atuação nas áreas de Estratigrafia e Sensoriamento Remoto, alerta para o fato de que um acidente ocorrido próximo à região costeira gera impactos ambientais significativos, já que atinge uma biota (fauna e flora de uma determinada área) muito mais rica, além do recolhimento do óleo ser mais trabalhoso. Mas acredita que as possibilidades de impactos ambientais diminuem na extração da camada pré-sal.

O doutor em Engenharia Metalúrgica e de Materiais, Telmo Roberto Strohaecker, concorda com a observação do colega: “A meta da Petrobras é vazamento zero. Em caso de vazamento, as válvulas são fechadas automaticamente. Ninguém quer perder óleo.”

Porém, o que mais preocupa as empresas petrolíferas não é a lâmina de água, mas transpassar a camada de sal. Conforme o professor Barboza, o sal possui um comportamento plástico, não é rocha completamente sólida. “Quando a broca perfura o sal, a tendência é que o buraco se feche em função da grande pressão”, esclarece o geólogo. Além disso, as camadas não são contínuas. Há barreiras entre elas, uma vez que as rochas que compõem os reservatórios estão encaixadas em “depressões”- explica Barboza, acrescentado que cada campo de petróleo é formado por diversos reservatórios. “Não há possibilidade de furar em um ponto específico e drenar toda a área” – afirma o pesquisador.

Telmo Strohaecker ressalta que a prospecção desgasta equipamentos e demanda investimentos tecnológicos significativos. Segundo ele, qualquer operação de sondagem envolve custos de milhões de dólares, o que acaba exigindo grande precisão durante o mapeamento.
Eduardo Barboza acredita que explorar as reservas do pré-sal é possível não apenas em termos tecnológicos. “Pelo preço elevado do barril de petróleo, hoje a extração tornou-se rentável. Se o preço caísse para, por exemplo, o valor de dez anos atrás, a Petrobras não iria explotar os reservatórios abaixo do sal.”

Professores apontam dificuldades na criação de nova estatal

Até 1997, a União monopolizava as atividades que envolviam petróleo e gás natural no país, com a Petrobras exercendo com exclusividade, além da exploração e produção, o refino, o transporte, a importação e a exportação de combustível fóssil. Com a promulgação da Lei do Petróleo, o governo federal passou a estabelecer contratos com empresas estatais e privadas para a realização dessas atividades. Atualmente, o modelo adotado pelo Brasil é o de concessões, em que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), órgão regulador, promove estudos para delimitar em blocos parte de uma bacia sedimentar. Em seguida, essas áreas são leiloadas em rodadas, nas quais empresas privadas podem adquirir blocos por licitação, para a exploração e a produção de óleo e gás. A Petrobras, como uma empresa de capital misto (público e privado), não possui nenhum privilégio nessas licitações.

Em 2007, o Conselho Nacional de Política Energética determinou que fossem retirados 41 blocos da 9ª rodada de licitações, todos com potencial de produção na camada pré-sal. A resolução também exigiu uma avaliação das mudanças necessárias no marco legal, contemplando um novo paradigma de exploração e produção de combustível fóssil.

Sem uma decisão oficial da comissão interministerial formada pelo Executivo para discutir o assunto, surgiram especulações sobre a criação de uma nova estatal para cuidar da exploração das jazidas a serem descobertas.

Sobre essa possibilidade, os especialistas da UFRGS foram unânimes: não acreditam ser possível a construção de uma nova empresa. Para o professor de Engenharia Telmo Stro-haecker, levaria muito tempo até que a companhia desenvolvesse tecnologia a ponto de ser reconhecida no mercado internacional. Eduardo Barboza, docente do Instituto de Geociên-cias, acha que o primeiro problema seria a falta de mão-de-obra qualificada.

Luiz Miranda, economista e professor da Faculdade de Ciências Econômicas, diz que o correto seria fortalecer a Petrobras, aumentando a participação do governo na empresa através da compra de ações ou da estatização da mesma. E questiona o modelo de concessões, afirmando que o petróleo é estratégico e não deveria ser tratado como mais uma commodity em mercado. “Os setores conservadores da sociedade brasileira defendem o modelo norte-americano, esquecendo que as empresas privadas são norte-americanas. Dessa maneira, nação e capital privado não têm dissonância quanto aos interesses estratégicos do país.” O professor substituto do Departamento de Ciência Política da UFRGS, Lucas Kerr Oliveira concorda  e propõe a adoção do modelo norueguês, no qual o governo tem participação acionária em todas as empresas petrolíferas atuantes em seu território. Para Oliveira, outra solução seria criar um fundo para as gerações futuras, que recolheria uma taxa sobre a exploração de petróleo para reinvestir na pesquisa de novas fontes de energia. “É quase imoral explorar um recurso tão rico sem deixar nada para as próximas gerações”, conclui.

Paula Vieira, estudante do 3º semestre de Jornalismo da Fabico – especial para o Jornal da Universidade


Jornal da Universidade, UFRGS,  nº 113, ano XII, Novembro de 2008, p. 5.

http://www.ufrgs.br/comunicacaosocial/jornaldauniversidade/113/pagina5.htm

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